Das lembranças ao volante de um L-1113 às gerações de caminhões, histórias mostram como a Mercedes-Benz marcou a vida de quem fez da estrada sua profissão.
Há histórias que começam antes de o motor ser ligado. Estão na lembrança do primeiro caminhão, nas viagens, nas madrugadas ao volante e nas conquistas construídas quilômetro após quilômetro. Para muitos caminhoneiros brasileiros, essas memórias também carregam uma estrela na dianteira. Ao longo de sete décadas, muita coisa mudou nas estradas e dentro das cabines. Os caminhões ganharam potência, segurança, conforto e tecnologia. A profissão também se transformou.
Para contar os 70 anos da Mercedes-Benz do Brasil, a revista Caminhoneiro escolheu percorrer parte dessa trajetória pelas lembranças de motoristas que viveram diferentes momentos da estrada. A história da marca no Brasil começou em 1956, com a produção nacional em São Bernardo do Campo (SP). Desde então, caminhões e tecnologias se sucederam. Um personagem, porém, permaneceu indispensável: o caminhoneiro.
Caminhão-escola
Cristiano Antonio Bueno, motorista profissional desde 1992, guarda uma relação especial com um dos caminhões mais conhecidos da marca no País: o Mercedes-Benz L-1113.
“Praticamente, o L-1113 foi o meu caminhão-escola. Foi nele que comecei a aprender de verdade a profissão e a vida na estrada. Eu trabalhava com o meu cunhado, Everaldo, transportando verduras. Saíamos de Chavantes, íamos buscar mercadoria no Ceasa e retornávamos para fazer as entregas”, relembra.
Era outro tempo. A tecnologia embarcada praticamente não existia e conhecer o caminhão significava prestar atenção ao funcionamento, aos ruídos e às mudanças de comportamento.
“Era um caminhão muito bom de trabalhar e de manutenção simples. Naquele tempo, muita coisa o próprio motorista conhecia e conseguia acompanhar. A gente sabia o barulho do motor, percebia quando alguma coisa estava diferente.”
Décadas depois, Cristiano teve a oportunidade de dirigir um LP 321 preservado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), em Campinas, entidade da qual é associado.
“Como sou associado, vi o LP 321 lá e aproveitei a oportunidade para dar uma volta. Foi uma experiência muito interessante, principalmente por poder sentir de perto como era dirigir um caminhão de outra geração.”
Para ele, a experiência mostrou na prática quanto a vida a bordo mudou. “É um veículo que exige uma condução bem diferente dos caminhões atuais e faz a gente perceber o quanto a tecnologia evoluiu.”
A evolução fica clara ao comparar o LP 321 com caminhões atuais, como o Atego 2429, que reúne visual moderno e robusto, além de mais conforto a bordo.
Estrela de família
Se o L-1113 foi o caminhão-escola de Cristiano, também ocupa lugar especial na história de seu cunhado, Everaldo Gonçalves dos Santos.
A paixão pelos pesados começou ainda na infância. “Sou apaixonado por caminhão desde criança. Eu tinha um vizinho que chegava com a carreta e eu falava que, quando crescesse, ia dirigir um caminhãozão igual ao dele”, conta.
Ao longo da trajetória profissional, Everaldo calcula ter sido proprietário de 11 caminhões Mercedes-Benz, entre eles L-1113, L-1313, L-1618, L-1620, LS-1932 e LS-1935.
Mas um 1113 trucado permanece acima dos demais na memória. Comprado de um tio e usado no trabalho com o sacolão, era azul e estava com a pintura desgastada quando Everaldo decidiu reformá-lo e realizar um antigo desejo do pai, Joaquim Gonçalves dos Santos.
“O sonho do meu pai, quando a gente tivesse um Mercedes, era pintar de verde metálico. Ele achava lindo.”
O caminhão ganhou pintura verde, inclusive na carroceria, além de para-choque cromado.
“Eu fui no verde só para deixá-lo feliz. Mandei pintar até a carroceria, tudo de verde. Coloquei para-choque cromado na época, tudo para agradar ele.”
“No fim, eu fui mais presenteado, porque fiquei feliz igual a ele”, recorda.
Seu Joaquim já faleceu, mas continua presente sempre que Everaldo conta a história daquele caminhão. “Não é porque era meu pai, não. Mas, se tinha uma pessoa boa nesse mundo, era ele. Uma pessoa fantástica. Eu pintei de verde por causa dele.”
Estrelado
Depois do L-1113 vieram outros Mercedes-Benz. Everaldo transportou verduras, trabalhou para grandes empresas, rodou por diferentes regiões e passou por caminhões de várias configurações.
Quando perguntado por que tantos veículos da marca passaram por suas mãos, recorre a uma frase que escutava desde menino:
“Na época em que eu cresci, todo mundo falava assim: ‘caminhão é Mercedes, caminhão tem que ter estrela na testa’. Eu cresci ouvindo isso.”
A relação construída ao longo dos anos também passou pela manutenção. Everaldo conta que sempre priorizou a preventiva e guarda boas lembranças das concessionárias que frequentava na região de Ourinhos, no interior paulista.
“Eu fazia sempre a preventiva ao invés da corretiva. Eu me sentia em casa, era tratado como da casa mesmo.”
Ao longo dessas sete décadas, os caminhões acompanharam as transformações do transporte. Segurança, conectividade e assistência à condução passaram a fazer parte de veículos muito diferentes daqueles que marcaram o início da trajetória de Cristiano e Everaldo.
70 anos depois
Sete décadas separam os primeiros caminhões Mercedes-Benz produzidos no Brasil dos veículos atuais.
Para Cristiano, essa evolução aparece ao comparar o LP 321 com os caminhões de hoje. Para Everaldo, está nos modelos que acompanharam seus anos de trabalho e, principalmente, nas histórias construídas ao redor deles.
Um L-1113 virou caminhão-escola. Um LP 321 permitiu experimentar outra geração. E um caminhão azul ganhou pintura verde metálica porque aquele era o sonho de seu Joaquim. Caminhões mudam. Tecnologias evoluem. As estradas se transformam. Mas algumas histórias continuam viajando com quem esteve atrás do volante.
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