Combustível renovável pode reduzir significativamente as emissões e apresentar custo por quilômetro competitivo. Expansão dos postos ainda é um dos principais desafios para caminhoneiros autônomos e pequenos transportadores.
A possibilidade de reduzir o gasto por quilômetro rodado e, ao mesmo tempo, diminuir as emissões coloca o biometano entre as alternativas ao diesel para o transporte rodoviário de cargas. O combustível já abastece operações regulares no Brasil, pode ser utilizado em caminhões movidos a gás natural sem adaptações mecânicas e apresenta desempenho adequado para diferentes operações.
Produzido a partir da purificação do biogás, o biometano tem características equivalentes às do gás natural. A principal diferença entre os dois combustíveis está na origem.
“O gás natural é um combustível fóssil, extraído de reservas geológicas, enquanto o biometano é renovável, produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos”, explica Daiana Gotardo Martinez, diretora técnica do CIBiogás — Centro Internacional de Energias Renováveis e Biogás.
Marcel Jorand, presidente da Gás Verde, reforça que o combustível pode ser produzido a partir de resíduos urbanos e agropecuários. No caso das plantas da empresa instaladas em aterros sanitários, o biogás que seria liberado na atmosfera é capturado e transformado em energia.
“Resíduos que seriam um problema ambiental passam a gerar combustível para movimentar veículos”, destaca Jorand.
Menos emissões
No transporte, o biometano pode substituir o diesel e também ser utilizado em veículos preparados para gás natural. Como GNV e biometano são intercambiáveis, os dois combustíveis podem utilizar os mesmos veículos e a mesma infraestrutura.
“O biometano substitui o combustível fóssil, o diesel, por um combustível renovável, produzido a partir de resíduos que, de outra forma, seriam descartados ou gerariam emissões sem aproveitamento energético. É uma solução de economia circular, que transforma passivo ambiental em energia”, afirma Daiana.
Segundo o CIBiogás, o uso do biometano pode reduzir em até 90% as emissões de CO? equivalente frente ao diesel.
Já a Gás Verde aponta potencial de redução de até 99% das emissões de gases de efeito estufa em comparação aos combustíveis fósseis. A redução ocorre tanto pelo aproveitamento do biogás que seria liberado na atmosfera quanto pela substituição de combustíveis fósseis na operação.
Sem adaptação
Para quem já possui um caminhão originalmente preparado para operar com gás natural, a utilização do biometano não exige alteração no motor.
“O biometano pode ser utilizado nos mesmos veículos e na mesma infraestrutura já preparada para gás natural veicular, sem necessidade de adaptação mecânica”, esclarece Daiana.
Jorand também destaca essa característica como uma das vantagens do combustível. Segundo ele, por serem intercambiáveis, gás natural e biometano podem inclusive ser utilizados em conjunto em uma estratégia gradativa de descarbonização.
O presidente da Gás Verde afirma ainda que o biometano tem vocação especial para as frotas pesadas, que já contam com caminhões que saem de fábrica preparados para operar a gás natural e biometano. Segundo ele, a autonomia pode chegar a 650 quilômetros, sem perda operacional dos motores.
Custo competitivo
Além dos benefícios ambientais, o custo operacional aparece como um dos atrativos do biometano.
Em simulação apresentada pela CNT, considerando o mesmo motorista, veículo e trajeto, o custo por quilômetro com biometano ficou em aproximadamente R$ 1,96. Na comparação, o quilômetro rodado com diesel comum chegou a R$ 3,00 e, com diesel S500, ficou em torno de R$ 2,50.
“Pode, sim, ser competitivo”, afirma Daiana. Ela ressalta, entretanto, que o resultado depende da distância entre a planta produtora e o ponto de abastecimento, do modelo de contratação, da quantidade de veículos e da política tributária aplicada ao gás natural veicular e ao biometano em cada estado.
Para Marcel Jorand, também devem ser considerados o perfil da operação, a distância percorrida, a disponibilidade de abastecimento, o peso da carga e as características da frota.
Outro ponto destacado por ele é a previsibilidade de preços. O biometano é produzido em território nacional e, segundo o presidente da Gás Verde, não sofre diretamente os impactos das variações do dólar e do petróleo, com preços referenciados pelo IPCA.
Operações reais
O biometano já está presente em operações regulares no País. Entre os exemplos citados pelo CIBiogás estão a unidade da Toyota no interior de São Paulo, apontada como a primeira fábrica da montadora no mundo operada com esse combustível, e a PepsiCo, em Itu, que combina sua utilização na fábrica e na frota própria.
Na distribuição, a Ultragaz possui uma carteira com aproximadamente 40 clientes e 200 caminhões movidos a biometano, segundo informações apresentadas pelo CIBiogás.
A Gás Verde também fornece o combustível para operações de transporte. Um dos exemplos é a parceria com o Grupo L’Oréal, que utiliza biometano em sua frota inbound, responsável pelo transporte entre a fábrica e o centro de distribuição em São Paulo. A operação conta ainda com ponto de abastecimento dedicado, autorizado de forma pioneira pela ANP.
Outro caso é o da Comlurb, no Rio de Janeiro, que colocou em operação 100 caminhões movidos a biometano produzido pela Gás Verde a partir dos resíduos do aterro sanitário de Seropédica.
“O lixo recolhido pela cidade retorna como combustível para os próprios veículos de coleta”, exemplifica Jorand ao destacar o conceito de economia circular.
Poucos postos
Apesar do avanço das operações, a infraestrutura de abastecimento ainda permanece como um dos principais gargalos para a expansão do combustível.
O Panorama do Biogás 2025 contabiliza mais de 1.800 plantas de biogás em operação no Brasil. Desse total, 21 estavam autorizadas pela ANP a produzir biometano e outras 48 encontravam-se em processo de autorização.
No Paraná, a Compagás opera 35 postos de abastecimento a gás, dos quais 13 são de alta vazão. Nesses pontos, um veículo pesado pode ser abastecido em aproximadamente 10 a 15 minutos.
Em São Paulo, a Transjordano estrutura um corredor verde na Rodovia Anhanguera, com apoio do Fundo Clima do BNDES e da Finame.
A Gás Verde também planeja ampliar a infraestrutura. Segundo Marcel Jorand, a empresa mira a implantação de novos pontos de abastecimento na Rodovia Presidente Dutra, conectando rotas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Outra possibilidade é instalar pontos dedicados dentro das próprias empresas e transportadoras, modelo que já é utilizado por alguns clientes.
Acesso
Neste momento, a adoção do biometano ainda está mais concentrada em grandes frotas e empresas com operações estruturadas, rotas planejadas e capacidade de organizar o abastecimento.
Para caminhoneiros autônomos e pequenos transportadores, a falta de postos em diferentes corredores, a ausência de um mercado consolidado de caminhões a gás seminovos e as dúvidas sobre o valor de revenda ainda dificultam a decisão de compra.
“Também existem mitos recorrentes sobre custo, perda de potência e disponibilidade de pontos de abastecimento”, observa Daiana.
Jorand avalia que esse cenário pode mudar com o avanço da infraestrutura. “Com a expansão da produção, da infraestrutura de abastecimento e dos corredores sustentáveis, o biometano tende a se tornar cada vez mais acessível para outros perfis de transportadores.”
Até lá, a decisão precisa considerar não apenas o preço do combustível, mas também a disponibilidade de abastecimento ao longo da rota, o custo de aquisição do veículo e as características específicas de cada operação.
Foto: divulgação/ilustrativa
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!