Importações cresceram 81,2% no primeiro semestre, enquanto a participação da indústria brasileira no mercado de reposição caiu para 29%
As vendas de pneus fabricados no Brasil fecharam o primeiro semestre de 2026 em queda, em meio ao avanço dos produtos importados no mercado nacional.
Segundo dados da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), as vendas de pneus nacionais de passeio, comerciais leves e carga recuaram 6,8% entre janeiro e junho, na comparação com o mesmo período do ano passado.
No total, as fabricantes instaladas no Brasil comercializaram 17,8 milhões de pneus nos primeiros seis meses de 2026. No primeiro semestre de 2025, haviam sido 19,1 milhões. No mesmo intervalo, as importações cresceram 81,2%.
Para a ANIP, os números mostram um desequilíbrio no mercado brasileiro de pneus, com impacto sobre a indústria nacional, os empregos, os investimentos e a cadeia produtiva do setor.
“Há um claro desequilíbrio no mercado brasileiro de pneus. O avanço das importações ameaça empregos, investimentos e a própria sustentabilidade da indústria instalada no país”, afirma Rodrigo Navarro, presidente da ANIP.
Mercado de reposição concentra maior queda
A maior retração ocorreu no mercado de reposição, onde as vendas da indústria nacional caíram 10,1%.
Mercado de reposição é o segmento de pneus vendidos para troca em veículos já em circulação. Em termos simples, é o pneu comprado pelo caminhoneiro, transportadora, frotista ou motorista comum quando chega a hora de substituir o produto usado.
Esse mercado é diferente do fornecimento para montadoras, que envolve os pneus instalados nos veículos novos ainda na fábrica. Nesse caso, o desempenho ficou praticamente estável, com queda de 0,3%.
Com o resultado do semestre, a indústria brasileira encerrou o período com apenas 29% de participação no mercado de reposição. Os pneus importados ficaram com 71%.
A mudança é significativa quando comparada a 2021. No primeiro semestre daquele ano, os fabricantes nacionais respondiam por cerca de 64% do mercado de reposição, enquanto os importados representavam 36%.
Pneus de carga puxam alerta
O avanço dos importados foi ainda mais forte no segmento de pneus de carga, usado por caminhões, ônibus e veículos pesados.
Entre janeiro e junho, as importações dessa categoria cresceram 157,9%. Com isso, os pneus importados passaram a representar 73% do mercado de reposição de pneus de carga. A participação dos produtos nacionais caiu para 27%.
Para o transporte rodoviário, esse dado chama atenção porque o pneu é um dos principais custos da operação, ao lado do diesel, da manutenção e do financiamento do veículo.
No caso do caminhoneiro e das transportadoras, a escolha do pneu envolve preço, durabilidade, segurança, recapabilidade, garantia, assistência e custo por quilômetro rodado. Por isso, o avanço dos importados tem impacto direto no mercado de reposição e na tomada de decisão de quem vive da estrada.
ANIP cobra medidas para reequilibrar o mercado
A ANIP afirma que os pneus importados muitas vezes entram no País com preços considerados artificialmente baixos. A entidade também aponta problemas no cumprimento das exigências ambientais relacionadas ao recolhimento e à destinação de pneus inservíveis.
Pneus inservíveis são aqueles que chegaram ao fim da vida útil e não podem mais ser usados para rodagem ou reforma. Pela legislação ambiental, fabricantes e importadores têm responsabilidade sobre a destinação correta desses produtos.
Essa destinação faz parte da chamada logística reversa. Em linguagem simples, logística reversa é o processo de recolher e dar destino ambientalmente adequado ao produto depois que ele deixa de ser usado.
Segundo dados do IBAMA citados pela ANIP, os importadores acumulam mais de 500 mil toneladas de pneus que deixaram de ser recolhidos nos últimos 14 anos.
“Os pneus importados muitas vezes entram no país com preços artificialmente baixos e, considerando o volume total reportado pelo IBAMA, os importadores não cumprem as exigências ambientais relacionadas ao recolhimento e à destinação de pneus inservíveis”, afirma Navarro.
Entidade levou pedidos ao governo
A ANIP aguarda a avaliação de pedidos apresentados ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para buscar um reequilíbrio no mercado.
O MDIC é o ministério responsável por políticas ligadas à indústria, comércio exterior e desenvolvimento econômico. Na prática, é uma das áreas do governo que pode analisar medidas relacionadas à entrada de produtos importados e à competitividade da produção nacional.
A associação cita exemplos de outros mercados que adotaram medidas de proteção à indústria local. Segundo a entidade, o México elevou a tarifa de importação para 35%, enquanto a União Europeia estabeleceu tarifas de até 45,3% sobre pneus importados da China.
Tarifa de importação é um imposto cobrado sobre produtos que entram no país vindos do exterior. Esse tipo de medida pode ser usado para tentar equilibrar a concorrência quando há suspeita de preços muito baixos, subsídios ou desequilíbrio comercial.
“O mundo está intensificando as barreiras tarifárias contra pneus da Ásia para proteger suas indústrias, enquanto o Brasil segue vulnerável. Se não forem tomadas medidas urgentes, haverá desindustrialização e aumento da dependência do mercado externo, com impacto inclusive no agro, caso da borracha natural produzida aqui”, afirma Navarro.
Desindustrialização significa perda de força da indústria local, com redução de produção, investimentos, empregos e fornecedores nacionais. No setor de pneus, esse impacto pode chegar também à cadeia da borracha natural, matéria-prima importante para a fabricação dos produtos.
Tema afeta indústria, transportadores e caminhoneiros
A discussão sobre pneus importados envolve diferentes lados do mercado.
Para a indústria nacional, o ponto central é a concorrência com produtos estrangeiros, a preservação de fábricas, empregos e investimentos no Brasil.
Para caminhoneiros, transportadoras e frotistas, o pneu é uma decisão de custo e segurança. Produtos mais baratos podem parecer vantajosos no primeiro momento, mas a conta precisa considerar durabilidade, desempenho, possibilidade de reforma, garantia, assistência técnica e comportamento do pneu em diferentes operações.
No transporte rodoviário de cargas, o pneu influencia diretamente o custo por quilômetro rodado. Uma escolha ruim pode aumentar o consumo, reduzir a vida útil, elevar o risco de paradas e comprometer a segurança na estrada.
Por isso, a queda nas vendas dos pneus nacionais e o avanço dos importados não são apenas uma disputa entre fabricantes. O tema também afeta a cadeia de transporte, a manutenção das frotas e o custo final da operação.
Sobre a ANIP
Fundada em 1960, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos representa a indústria de pneus e câmaras de ar instalada no Brasil.
A entidade reúne 11 empresas: Bridgestone, Continental, Dunlop, Goodyear, Maggion, Michelin, Pirelli, Prometeon, Rinaldi, Titan e Tortuga. Ao todo, são 19 fábricas instaladas em sete estados brasileiros.
Segundo a ANIP, o setor emprega diretamente 35 mil pessoas e gera mais de 500 mil empregos indiretos.
A entidade também atua na gestão da coleta e da destinação de pneus inservíveis desde 1999. Em 2007, criou a Reciclanip, voltada exclusivamente a esse trabalho no País.
A Reciclanip é uma iniciativa de logística reversa no setor de pneus e atua para dar destino ambientalmente adequado aos pneus que chegaram ao fim da vida útil.
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