km 72 do trecho Sul do Rodoanel

Não adianta ter uma lei que garanta os direitos dos caminhoneiros se as empresas não a respeitam. No final, todos perdem. Às vezes, a própria vida ou a de outros.

Domingo pela manhã. No km 72 do trecho Sul do Rodoanel, sentido Santos, vários cones sinalizam mais um acidente com um bitrem. Um caminhão, carregado com 50 toneladas de farelo de soja está no canteiro central.

As equipes da SPMAR, concessionária que cuida da rodovia, se esforçam para sinalizar a pista evitando novos acidentes enquanto um guincho faz a sustentação para um dos reboques com 22,5 toneladas não tombar de vez.

Na pista, a marca do local onde o caminhão saiu para o canteiro central. O caminhão não teve grandes avarias, apenas arranhões na lateral. O motorista não sofreu nada, além do susto de acordar no meio das duas pistas.

Ele saiu de Itumbiara, GO, às 18 horas do sábado com destino ao porto de Santos. Às 6h00 do domingo, cochilou no km 72 do Rodoanel (720 km até o local do acidente) e acordou no meio das duas pistas. O motivo da cochilada é simples. O corpo humano não aguenta dirigir durante doze horas sem um estimulante (rebite ou cocaína). A Lei do Descanso que previa direção de no máximo quatro horas ininterruptas, foi alterada para 5,5 horas, com 30 minutos de descanso. E o descanso de 11 horas entre dois dias de trabalho reduzido para 8 horas. Legisladores e empresários ainda não se conscientizaram que caminhoneiro não é máquina. Que os olhos humanos não são faróis que podem ser ligados e desligados em um botão.

O motorista também sabe da lei. “Eu sei, a empresa sabe, todo mundo sabe”, disse o caminhoneiro. “Mas eu ganho por comissão. Se eu descanso não ganho, se não ganho, como vou cuidar da minha família”.

A lei 12.619 impede o pagamento de comissão para motoristas. Já existe uma alternativa (revista Caminhoneiro março/2013) que é o Programa de Remuneração Variável (PRV). Mas a maioria das empresas prefere estimular seus motoristas a cumprirem prazos absurdos. Até que um deles provoque um acidente. O seguro paga.

Neste caso, os prejuízos foram apenas materiais. Se bem que a seguradora paga a soja perdida, que ainda será reciclada. A empresa foi autuada por não manter o tacógrafo em dia. O disco do tacógrafo venceu às 24 do sábado. O acidente ocorreu às 6 horas do domingo. O motorista foi autuado por “desatenção”. Tudo acabou bem.

Mas se esse caminhoneiro tivesse cochilado na serra de Santos ou em uma estrada de pista simples, com certeza teria morrido, ou matado alguém. Até quando os empresários irão colocar a vida dos seres humanos em risco? Até quando os caminhoneiros vão fazer de seus caminhões armas letais matando e morrendo. Vale a pena arriscar?

Fique por dentro de todas as novidades da Revista Caminhoneiro!


Leave a reply