Cinco acidentes em rodovias de quatro estados deixaram dezenas de mortos em menos de uma semana; entidade do setor cobra política nacional de inspeção técnica de caminhões e ônibus
Uma sequência de acidentes graves envolvendo caminhões, carretas e ônibus voltou a colocar em discussão a segurança dos veículos pesados nas rodovias brasileiras. Em menos de uma semana, ocorrências no Rio de Janeiro, em Mato Grosso do Sul, em São Paulo e no Paraná deixaram dezenas de mortos e feridos, reacendendo o debate sobre manutenção, fiscalização e inspeção veicular no transporte de cargas e passageiros.
Colisão no Paraná é a mais grave da semana
O acidente mais recente ocorreu na madrugada de quarta-feira (19), na BR-373, em Ipiranga, no interior do Paraná. Um caminhão colidiu de frente com um veículo da Secretaria de Saúde de Imbituva (PR) e deixou ao menos 23 mortos e cinco feridos. Segundo informações preliminares, o caminhão teria invadido a pista contrária; as circunstâncias ainda são apuradas pelas autoridades.
Outros quatro acidentes graves na mesma semana
A tragédia do Paraná se soma a outras quatro ocorrências graves registradas desde o domingo anterior (16). Na BR-040, em Petrópolis (RJ), o tombamento de um ônibus de turismo matou dez pessoas. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a viagem era irregular: o veículo não tinha autorização para fazer transporte interestadual, uma situação em que a operação não passa por nenhum tipo de controle prévio de segurança.
No mesmo domingo, na BR-163, em Bandeirantes (MS), duas carretas e três automóveis se envolveram em um acidente que deixou quatro mortos e seis feridos. Uma das carretas transportava combustível e explodiu após a colisão.
Na terça-feira (18), na rodovia Fernão Dias (BR-381), em Vargem (SP), um caminhão atingiu uma passarela, que desabou sobre um automóvel e matou duas pessoas. No mesmo dia, um engavetamento entre quatro carretas e seis veículos no km 41 da BR-277, em Morretes (PR), deixou duas pessoas mortas e cinco gravemente feridas. Nesse caso, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) identificou manipulação no sistema de freios da carreta apontada como responsável pelo início do acidente.
O que os números da PRF mostram
Os episódios da semana se somam a um cenário que já vinha preocupante. Segundo dados da PRF, somente em 2024 foram registrados 18.511 acidentes envolvendo veículos de carga nas rodovias federais brasileiras, com 2.884 mortes e 19.451 feridos.
Para Daniel Bassoli, diretor executivo da Federação Nacional da Inspeção Veicular (FENIVE), entidade que reúne empresas do setor de inspeção técnica de veículos, a sequência de acidentes reforça a necessidade de olhar para a segurança nas estradas de forma mais ampla, unindo o comportamento dos motoristas às condições técnicas dos veículos.
"Quando falamos em segurança viária, precisamos falar de imprudência, velocidade, jornada dos motoristas e respeito às regras. Mas precisamos olhar também para o veículo que está na estrada. Caminhões e carretas operam com peso elevado e, quando existe uma irregularidade ou falha em sistemas essenciais como freios, pneus, suspensão ou direção, as consequências podem ser muito graves", afirma Bassoli.
Falha mecânica não é o único fator, mas pesa nas estatísticas
O próprio dirigente da FENIVE pondera que não se trata de atribuir às falhas mecânicas a responsabilidade por todos os acidentes com veículos pesados: a PRF aponta o comportamento dos motoristas entre os principais fatores relacionados às ocorrências nas rodovias. Segundo a FENIVE, porém, como a segurança viária depende de vários fatores ao mesmo tempo, as condições técnicas da frota não deveriam ficar de fora das políticas de prevenção.
A entidade cita um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com base em estatísticas da própria PRF, segundo o qual falhas mecânicas aparecem como causa de acidentes em percentual próximo ao de ocorrências ligadas ao consumo de substâncias proibidas.
Freios manipulados reacendem o alerta
O acidente da BR-277, no Paraná, com a manipulação identificada no sistema de freios de uma das carretas, é citado pela FENIVE como exemplo do tipo de risco que a inspeção técnica veicular poderia flagrar antes de o veículo circular.
"É exatamente para agir antes do acidente que existe a inspeção técnica veicular. A inspeção permite identificar alterações, irregularidades e condições que comprometem a segurança antes que o veículo esteja circulando pela rodovia. Não podemos esperar que um problema em um sistema de freios seja descoberto somente depois de uma tragédia", diz Bassoli.
FENIVE cobra política nacional de inspeção veicular
A entidade defende a implantação de uma política nacional efetiva de inspeção técnica veicular, prevista no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) desde a sua criação, mas ainda sem aplicação uniforme em todo o país. Para a FENIVE, essa inspeção periódica dos veículos deveria funcionar ao lado da manutenção preventiva feita pelas próprias transportadoras, da fiscalização nas estradas e da conscientização dos motoristas, não como substituta de nenhuma dessas frentes.
"Em 2024, quase três mil pessoas morreram em acidentes envolvendo veículos de carga somente nas rodovias federais brasileiras. É um número que exige atenção. Segurança veicular não pode ser tratada apenas depois que o acidente acontece. Precisamos trabalhar com prevenção, e a inspeção é uma das ferramentas que o Brasil ainda precisa utilizar de forma efetiva", conclui Bassoli.
Para transportadoras e motoristas autônomos, o episódio da semana reforça um ponto prático: revisar freios, pneus, suspensão e direção antes de cada viagem longa segue sendo, hoje, a principal barreira contra falhas mecânicas graves enquanto o país não tem uma política nacional de inspeção veicular em vigor.
Foto: divulgação
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