O ilustre desconhecido

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Bom dia! Deixe-me apresentar a você. Apesar de estar com você todos os dias, o dia inteiro, você não me conhece. Sou aquele que leva seu café da manhã, o leite, o pão e as frutas.

Depois de alimentado, você vai para o seu trabalho, mas antes, compra o jornal, que só está lá porque eu passei primeiro. Em seu escritório, lendo as notícias, você nem se dá conta que a mesa, o armário e até o cofre de seu escritório foram levados por mim.

No almoço, a gente até se cruza, mas você, mais rápido e sempre apressado, nem me agradece, nem sequer me dá bom dia.

Naquele restaurante que você sempre vai, eu também vou. Não nos mesmos horários. Eu madrugo para que ele funcione direitinho, inclusive tenha o choppinho para o happy hour.

No fim de semana, não abandono você, mesmo você reclamando que “a gente só atrapalha”. Mas, e naquela vez que você ficou perdido e que seu GPS não conhecia aquela cidadezinha do interior? Fui eu quem te orientou.

Mais triste foi o dia em que tive que socorrer você no meio do mato, depois que você tomou ?umas a mais? e perdeu a direção. Você teve muita sorte, antigamente eu parava mais para ajudar quem estava em apuros. Hoje, com essa violência, só se for muito grave. Algumas vezes colegas meus pararam para ajudar e acabaram sendo assaltados. Alguns morreram.

Mas morte é uma coisa que não gosto, e por isso, em situações extremas, já atuei como bombeiro. Sim, nas enchentes de Santa Catarina, me enfiei no meio das águas, esquecendo que elas podiam levar meu maior bem material. Mas o que é um bem material diante de vidas de pessoas indefesas, de crianças e idosos. Consegui, salvei algumas e continuei na ativa levando como maior presente, o sorriso de gratidão dessas pessoas.

Algumas vezes me chamam de mal necessário. Não sou mal. Sou o bem. Mal são nossas estradas esburacadas, os pedágios abusivos, o diesel de má qualidade, os policiais corruptos e as jornadas que tenho que fazer porque se não faço, outro faz. E faz porque ganhamos pouco e temos que sustentar nossas famílias.

Bem amigo, se você ainda não sabe quem eu sou, lamento muito. Lamento pela sua ignorância em não reconhecer alguém que leva nas costas 70% de tudo que se transporta no Brasil. Lamento por você não reconhecer alguém que passa todos os dias da semana transportando o progresso e tudo aquilo que fará sua vida melhor. Lamento muito por não poder contar com sua solidariedade dividindo a estrada comigo de maneira gentil e civilizada.

Se você ainda não sabe quem eu sou, vou lhe dizer, e com orgulho: EU SOU CAMINHONEIRO. Não se preocupe por não me reconhecer. Nem o Governo me reconhece. Estamos lutando para sermos uma categoria com leis que nos protejam. Você não é o único a nos ignorar.

Mas lhe digo como amigo, não sou São Cristóvão, que levou o “Criador do mundo” nos ombros, mas sou caminhoneiro, e levo o progresso desse País em minhas costas.

Francisco Reis.

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