Enquanto o Brasil desacelera para a ceia, milhares de caminhoneiros seguem viagem — e poucos têm a sorte de passar a data com a família.
É 24 de dezembro. No rádio, uma versão sertaneja de Noite Feliz tenta ocupar o espaço que o motor não encobre mais. O relógio digital da cabine marca 21h17. A luz vermelha do painel se espalha pelo interior do caminhão como se fosse uma árvore de Natal improvisada, dessas feitas mais de afeto do que de enfeites. O pátio do posto, às margens da BR-153, está quase silencioso: um ou outro caminhão ainda encosta, outro parte, mas a estrada, mesmo quieta, continua respirando. Dentro de um deles, um homem pega sua marmita, ajeita o celular no painel e espera a imagem estabilizar. Quando a tela finalmente se abre, aparece a família reunida ao redor da mesa, rindo, falando ao mesmo tempo, como se quisessem compensar a distância com barulho. O vídeo falha, congela, volta. O sentimento não.
É nesse intervalo entre o som do motor e o silêncio da saudade que acontece um Natal que não costuma aparecer em propagandas: um Natal de faróis acesos, de motores semi-desligados, de ceias improvisadas em potes de plástico, de esperança guardada no bolso da camisa. Um Natal vivido todos os anos por quem move o Brasil, mas carrega uma carga que não aparece em manifesto nenhum: a ausência.
O caminhoneiro não é apenas o homem que transporta mercadorias. Ele é, sem perceber, o elo invisível entre quem produz e quem celebra. Mais de 60% de tudo o que chega às casas, mercados, farmácias e indústrias viaja em cima de um caminhão. Panetones, brinquedos, frangos congelados, bicicletas infantis, remédios que salvam vidas, árvores de Natal artificiais, ração, cimento, geladeiras. Nada chega à mesa, ao quarto das crianças ou às prateleiras iluminadas do comércio sem atravessar a estrada — e, muitas vezes, sem roubar um pedaço do Natal de quem dirige.
A razão é tão simples quanto dura: enquanto o país desacelera para o descanso, a estrada segue obedecendo ao relógio da economia. O fim do ano concentra a maior pressão de prazos, filas, cargas represadas em portos, armazéns lotados, distribuidoras atrasadas. O caminhoneiro é a última etapa da cadeia — e, por isso, é nele que estoura a urgência. Se ele para tudo atrasa. E se tudo atrasa, ele não recebe. A maioria só recebe depois de entregar. Parar no Natal significa adiar o salário, o diesel, a próxima viagem. No fim das contas, não é exatamente o Natal que rouba o caminhoneiro da estrada. É a lógica do país.
É nesse cenário que vive Kênia Martins Fehlauer. Há 9 anos na profissão, ela dirige para a Costa Teixeira Transportes e cruza o Brasil levando bobinas, MDF, sal, embalagens, betonita — e uma bagagem que não aparece no tacógrafo: a saudade.
Para ela, passar o Natal longe da família “é ruim, é triste. Todos estão lá — menos você.” O que mais sente falta? “Da união da família, todos os preparativos para a ceia e o almoço, as risadas, as histórias do passado... as comidas.” Kênia não costuma parar em datas especiais: “Costumo seguir viagem.”
Mesmo assim, alguns Natais ficam na memória. Ela relembra um em especial:
“Minha mãe também trabalha como motorista aqui na empresa e, em um dos anos, tivemos a oportunidade de passar essa época juntos com os colegas. Fizemos um ótimo churrasco. Nesse período, é importante saber aproveitar, mas com responsabilidade — evitando beber o que não devemos. Só assim consigo sentir de verdade o espírito natalino.”
A história de Kênia revela um lado da estrada: o Natal vivido no movimento. Mas nem todos os caminhoneiros passam pela data da mesma forma. Do outro lado da experiência está Luciano Veríssimo de Lima, que há 15 anos trabalha transportando medicamentos em uma carreta baú.
Assim como a motorista profissional Kênia, Emerson Reis Correia também vive o Natal longe de casa, com o caminhão como companheiro de jornada. Há 15 anos, Emerson vive a rotina intensa da estrada como motorista profissional da BBM. Com o volante nas mãos e o olhar firme no horizonte, ele sabe que o Natal, para quem trabalha transportando o país, nem sempre vem com luzes e ceias — muitas vezes, é apenas mais um dia de trabalho.
“Passar o Natal longe da família é horrível”, resume, com sinceridade. A saudade da esposa e dos filhos é o que mais pesa nessa época do ano. Sem paradas especiais, Emerson segue viagem, tratando o dia 25 como qualquer outro na agenda apertada do transporte rodoviário. “Não existe Natal marcante na estrada, é um dia normal de trabalho”, afirma.
Mesmo assim, a tecnologia tem se tornado uma aliada para amenizar a distância. As videochamadas e mensagens trocadas durante o trajeto servem como um pequeno consolo — “não ajudam a diminuir a saudade, mas amenizam”, diz ele.
Para Emerson, o Natal longe de casa “não significa nada”, mas o desejo de um futuro melhor permanece firme: “Quero minha família unida e todos com saúde.” E quando fala sobre o futuro da profissão, o motorista é direto: “Se a remuneração não for justa e competitiva, essa profissão pode acabar se tornando apenas uma lembrança do passado.”
Mesmo diante da solidão e da rotina difícil, ele deixa uma mensagem de companheirismo a quem também vai passar o Natal na estrada: “Estamos juntos! Agora é acelerar e fazer acontecer.”
Ao contrário de muitos colegas, Luciano se considera privilegiado, porque faz entregas apenas dentro da sua região, no Rio Grande do Sul. Assim, consegue passar o Natal com a família — a mãe, Almery, e os irmãos.
“Quando chega essa época do ano, a empresa dá uma breve parada. No meu caso, sempre trabalhei de forma regional, nunca fiz rotas pelo Brasil inteiro.”
Mesmo podendo passar a data em casa, ele não esquece de quem segue na estrada. Luciano reconhece que, em muitas cabines, o silêncio pesa mais que o motor.
Outro privilegiado é Francisco Fernandes Moreira, agregado BBM – Operação Klabin Pernambuco. Com duas décadas de estrada, Francisco se considera um motorista de sorte. Diferente de muitos colegas que passam as festas longe de casa, ele sempre conseguiu se programar para estar com a família nas datas especiais.
“Sobre passar o Natal fora nem tenho muito o que falar, porque sempre me programei pra passar em casa”, conta.
Francisco afirma que nunca viveu uma experiência marcante de solidariedade ou companheirismo na estrada durante o Natal, mas reconhece a importância das conexões que se formam nessa época do ano. “A tecnologia une caminhoneiros e famílias, reforçando vínculos e aproximando distâncias”, afirma. Mesmo longe de casa, ele sente que o apoio mútuo entre colegas e o contato digital com quem ama tornam a jornada menos solitária.
No tema família e tecnologia, Francisco reflete que, embora os recursos modernos não eliminem a saudade, ajudam a amenizá-la. “Não ajuda a diminuir a saudade, porém ameniza”, diz. As videochamadas e mensagens especiais se tornaram rotina, mas ele confessa que “abraçar à distância é apenas uma ilusão” — um gesto simbólico que tenta preencher o vazio da ausência.
Com relação à esperança e resiliência, Francisco é direto: deseja apenas “minha família unida e todos com saúde” no próximo Natal. Ao olhar para o futuro da profissão, demonstra preocupação: “Se a remuneração dos motoristas não for justa e competitiva, essa profissão pode acabar se tornando apenas uma lembrança do passado, algo que sabemos que existiu, mas não vemos mais.”
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