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Mulheres que movem o Brasil pelas estradas

Por Graziela Potenza em 06/03/2026 às 12:25
Mulheres que movem o Brasil pelas estradas

 

No Dia Internacional da Mulher, a história de Luciana Maria Maciel homenageia as caminhoneiras que enfrentam desafios e ajudam a mover o país todos os dias.

No Dia Internacional da Mulher, celebrar histórias como a de Luciana Maria Maciel é também prestar uma homenagem a todas as caminhoneiras que, com coragem, dedicação e amor pela profissão, enfrentam desafios, vencem barreiras e ajudam a mover o país todos os dias. Em um setor historicamente marcado pela presença masculina, cada mulher que assume o volante de um caminhão carrega não apenas cargas, mas também sonhos, conquistas e exemplos de força. A trajetória de Luciana traduz exatamente isso: a força feminina transformando saudade em estrada, dor em propósito e sonho em profissão.

Entre a memória do pai caminhoneiro, o incentivo das filhas e a coragem de nunca desistir, Luciana cruzou o medo, o preconceito e a pandemia para se tornar motorista profissional e escrever sua própria história nas rodovias do Brasil.

Desde muito cedo, a estrada já fazia parte da vida de Luciana Maria Maciel. Hoje ela é motorista profissional, dirige um Scania R450, transporta cargas refrigeradas e secas e percorre o Brasil com orgulho no peito e firmeza nas mãos. Mas essa conquista não nasceu de um dia para o outro. Ela foi construída com sonhos de infância, perdas profundas, persistência e muita coragem.

Luciana cresceu em um ambiente onde o caminhão não era apenas um veículo — era um modo de vida. Seu pai, Luiz Carlos, e seus tios eram caminhoneiros, e foi observando essa rotina que ela aprendeu a amar tudo o que envolvia a profissão. O som do motor, as histórias de estrada, os encontros nos pontos de parada e a sensação de liberdade sempre despertaram nela o desejo de seguir o mesmo caminho.

Esse sonho, no entanto, sofreu um duro golpe. Seu pai faleceu após sofrer um acidente em São Luís do Maranhão. Foram quatro longos dias até que o corpo dele chegasse em casa. A dor foi profunda, marcante, e acabou esfriando aquele sonho que ela guardava com tanto carinho. A perda a deixou triste, impressionada e emocionalmente abalada.

Mesmo assim, os sonhos nunca desapareceram completamente. Luciana e o pai costumavam imaginar um futuro juntos: os dois com seus próprios caminhões, uma transportadora da família, paradas na estrada para tomar chimarrão, preparar o jantar juntos em algum ponto de apoio, dividir histórias e quilômetros. Eram muitos sonhos, interrompidos cedo demais, mas jamais esquecidos.

Novos rumos

Anos depois, a vida começou a soprar novos ventos. Em dezembro de 2019, quem reacendeu a chama foram suas filhas. Em uma conversa simples, mas poderosa, ela ouviu palavras que mudariam tudo:

“Mãe, acho que a senhora tem que fazer a sua carreira e ir atrás do seu sonho, já que adora essa profissão e ama tudo relacionado aos caminhões.”

Aquele incentivo foi decisivo. Em junho de 2021, conquistou a tão sonhada categoria E. Era o primeiro grande passo concreto rumo ao sonho de infância. Porém, logo em seguida, o mundo parou. A pandemia chegou e, com ela, a insegurança, o medo e a escassez de oportunidades.

Mesmo assim, Luciana não desistiu. Em 2021, saiu para fazer uma viagem e conheceu uma pessoa pelo Facebook, que disse que iria ajudá-la. Ela foi até uma entrevista cheia de esperança. Lá, ouviu uma pergunta que machuca muitos profissionais iniciantes:

“Você é caminhoneira há quanto tempo?”

Ela respondeu com sinceridade: a habilitação era recente.

A resposta foi dura:

“Esse povo faz uma viagem para São Paulo e depois fala que é motorista.”

Com firmeza, Luciana respondeu que em nenhum momento disse que tinha experiência, que havia acabado de tirar a CNH E e estava ali apenas pedindo uma oportunidade. Disse ainda que, se quisessem, poderiam fazer o teste, pois assim ela iria para casa de uma vez.

Por pouco, ela quase desistiu. Mas, naquele momento, pensou nas filhas em casa, torcendo por ela, acreditando nela. Decidiu seguir em frente e fazer o teste. Entrou no caminhão com medo, mas também com determinação. A moça que estava com ela percebeu:

“Luciana, quando embarquei nesse caminhão estava com medo, e olha só como você está indo bem.”

Durante 45 minutos, os instrutores conversaram enquanto ela dirigia. Ao final, veio a resposta que mudaria tudo:

“Vai fundo. Vejo muita gente chegar aqui e não fazer metade do que você fez.”

Luciana foi encaminhada ao RH, onde ouviu outra pergunta inesquecível:

“Pode começar quando?”

Na época, ela trabalhava como promotora de vendas e precisava de 30 dias para sair do emprego. A transportadora entendeu e aceitou esse tempo de desligamento da outra empresa. Mas, novamente, a vida colocou um obstáculo no caminho: Luciana pegou Covid e precisou ficar muito tempo isolada em casa.

Mesmo doente, ela não desistiu. A mala já estava pronta para ir para a empresa quando recebeu uma ligação inesperada de outra transportadora — e transformadora. Era da Cordenonsi, empresa que sempre foi seu grande sonho profissional. Eles estavam analisando currículos. Ela havia enviado há muito tempo.

A proposta era especial: selecionar 12 mulheres para formar a primeira turma feminina da empresa e realizar o curso da FABET. A Cordenonsi, especialista no transporte rodoviário de cargas com temperatura controlada, estava abrindo portas — e Luciana entrou por elas com coragem. Quando foi fazer o curso, já estava com a carteira assinada.

Hoje, Luciana trabalha na Cordenonsi, conduz um Scania R 450 e atua no transporte de cargas refrigeradas e secas. Até pouco tempo atrás, fazia rotas internacionais, incluindo o Chile.

A decisão de deixar essa rota veio após um momento profundamente marcante em sua vida.

“Parei de fazer o Chile por causa da minha mamãe. No dia 23 de janeiro do ano passado, minha mãe Verônica faleceu e eu estava no Chile, sem nenhuma condição de voltar a tempo para o Brasil. Não consegui chegar para o velório. Ela partiu e eu não pude me despedir, deixando um vazio enorme no meu peito.”

Além da dor da perda, Luciana conta que as viagens internacionais são muito solitárias. Por isso, optou por seguir trabalhando apenas em rotas nacionais, como São Paulo–Itajaí, o que permite estar mais próxima das filhas.

Há mais de quatro anos na profissão, Luciana se sente realizada e orgulhosa da escolha que fez, equilibrando a paixão pela estrada com o amor pela família.

Além da caminhoneira forte e determinada, existe a mãe orgulhosa. Luciana tem duas filhas: Nathalia, de 29 anos, mãe da pequena Rafaela, de 6 anos; e Iohana, de 15 anos.

As filhas amam a profissão da mãe e são sua maior motivação. Luciana afirma, com brilho nos olhos, que está feliz na Cordenonsi e realizada com o caminho que escolheu.

No dia a dia da estrada, ela leva consigo valores que considera essenciais. A humildade é um deles. Para Luciana, não existe vergonha em perguntar, em dizer “não sei” ou pedir ajuda. A experiência, segundo ela, é construída dia após dia, com atenção, cuidado e respeito. Suas manobras são feitas com cautela, sempre priorizando a segurança.

Para quem sonha seguir o mesmo caminho, Luciana deixa uma mensagem clara e poderosa:

“O primeiro passo é trabalhar sem desistir dos seus sonhos.”

A história de Luciana Maria Maciel não é apenas sobre caminhões, estradas ou motores potentes. É sobre transformar dor em propósito, saudade em força e sonho em realidade. Cada quilômetro percorrido carrega a memória do pai, o amor das filhas e a certeza de que nunca é tarde para acreditar em si mesma.

Na boleia do Scania, ela segue em frente — não apenas conduzindo cargas, mas guiando a própria história, com coragem, dignidade e o coração aberto para tudo o que a estrada ainda tem a oferecer.

Foto: divulgação

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