Paso Cristo Redentor vive o fechamento mais longo de sua história; entidade do setor cobra protocolo binacional para casos extremos
O Paso Cristo Redentor, principal ligação rodoviária entre Argentina e Chile, está fechado desde 14 de julho por causa de nevascas e risco de avalanches na Cordilheira dos Andes — e a interdição já é a mais longa da história do corredor. Até a atualização mais recente localizada nesta apuração, referente a 11 de agosto, o fechamento completava 28 dias consecutivos, superando o recorde histórico anterior, de 26 dias, registrado em 2023.
A paralisação represa hoje cerca de 2 mil caminhões, a maioria na província argentina de Mendoza, segundo o balanço mais recente de autoridades e associações do setor transportador argentino. Entre eles estão centenas de veículos brasileiros que levam automóveis, autopeças, alimentos, remédios, máquinas e produtos industrializados até o mercado chileno. No início de agosto, esse número ainda girava em torno de 700 caminhões, o que dá a dimensão de como a fila cresceu ao longo das últimas semanas.
Neve, vento de até 160 km/h e um impasse diplomático
A causa inicial do fechamento foi o acúmulo de neve: as autoridades chilenas chegaram a registrar mais de 6,6 metros na região, volume que as próprias equipes de resgate classificaram como excepcional, comparável apenas a episódios de 1997. Rajadas de vento entre 100 km/h e 160 km/h seguem reduzindo a visibilidade na pista e impedindo a retomada segura do tráfego, mesmo em trechos já limpos.
Mas, no fim de semana de 8 e 9 de agosto, o obstáculo deixou de ser só o clima. Depois que a Vialidad Nacional argentina liberou tecnicamente o trecho até o túnel internacional, o governo argentino convocou uma reunião virtual para formalizar a reabertura, prevista para as 9h de domingo. As autoridades chilenas, porém, não se conectaram nem deram confirmação oficial, e o cruzamento seguiu oficialmente fechado mesmo com a rota pronta do lado argentino. Uma nova frente de mau tempo é esperada a partir de 17 de agosto, o que pode adiar ainda mais qualquer reabertura.
Prejuízo argentino já passa de US$ 18 milhões, e conta segue aberta
Transportadores argentinos calculam que cada caminhão parado perde, em média, US$ 450 por dia, valor que sobe a US$ 600 diários nos veículos equipados com sistema de refrigeração, que precisam manter o motor ligado para não perder a carga.
Sobre o prejuízo total acumulado, não foi localizada, até o fechamento desta apuração, uma estimativa própria e publicada por entidade brasileira. Do lado argentino, a Associação de Proprietários de Caminhões de Mendoza (Aprocam) estimava, por volta do 21º dia de fechamento, perdas acima de US$ 18 milhões no setor, número que tende a subir enquanto a fronteira continuar interditada.
Para a NTC&Logística, o episódio expõe a falta de um protocolo binacional para situações excepcionais. Em nota à imprensa, o vice-presidente extraordinário de Relações Internacionais da entidade, Danilo Guedes, afirmou que as transportadoras "enfrentam aumento significativo dos custos operacionais, dificuldades relacionadas aos regimes aduaneiros e incertezas que afetam toda a cadeia de abastecimento" e defendeu maior cooperação entre Brasil, Argentina e Chile para dar mais previsibilidade ao transporte internacional.
Reabertura, quando vier, será escalonada
O fechamento também empurra parte do fluxo para rotas alternativas, como os passos Jama e Cardenal Samoré, trajetos que podem significar até 2 mil quilômetros a mais de viagem e custos logísticos bem mais altos que os cerca de 400 km entre Mendoza e Santiago pelo Cristo Redentor.
Quando a liberação vier, ela não deve ser imediata para toda a fila. O plano em preparação pelas autoridades argentinas prevê abrir a passagem primeiro só para os caminhões já parados e com documentação alfandegária regularizada na Área de Controle Integrado de Uspallata, cerca de 1,5 mil veículos nessa situação. A ideia é formar dois grandes pontos de espera na Rota 7, com capacidade para cerca de 700 caminhões cada, liberados em lotes a cada cinco ou seis horas. Em condições normais, o paso comporta entre 500 e 600 caminhões por dia, bem abaixo do volume represado. A expectativa das autoridades é de que sejam necessários de cinco a seis dias só para escoar essa fila inicial.
"Ninguém dá notícia de nada": o dia a dia de quem está parado na neve
Por trás dos números, há motoristas brasileiros isolados há quase três semanas. O catarinense Jairo Gomes, de Sombrio (SC), relatou à imprensa que, até 4 de agosto, já estava parado havia 18 dias sem data oficial de liberação. Associações locais organizam doações de sopa, água e alimentos básicos para os caminhoneiros represados, mas a rotina segue precária: banho quente, por exemplo, só em posto próximo, mediante pagamento.
"Os dias estão bem longos. Tem muito vento aqui [...] E ninguém dá notícia de nada, só o que a gente escuta que está nevando e que eles não conseguem limpar", disse Gomes, que tem documentado a espera em vídeos nas redes sociais.
Para quem transporta carga para o Chile, o cenário reforça a necessidade de acompanhar diariamente os canais oficiais de fronteira antes de sair para a viagem, e de ter um plano de contingência para o motorista, já que a reabertura, mesmo quando anunciada, deve ocorrer de forma escalonada para dar conta do volume represado.
Foto: divulgação/ilustrativa
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