Por volta das 4h45 da madrugada, preparávamos para sair de um posto onde estávamos dormindo. Antes de sairmos, vimos uma carreta, de um gaúcho, sair na nossa frente. Como meu veículo tinha vazamento de água no radiador, seu Borges (meu companheiro de trecho) lembrou de colocar mais água e, por isso, nós não saímos antes. Lembro-me que estava no leito quando seu Borges gritou:

– Olha o acidente.

Eu que estava com muito sono, demorei uns 30 segundos para me dar conta do que aconteceu. Perguntei:

– O que houve?

O Borges, já gritando respondeu:

– Não está vendo o defunto na pista, cego!

Logo que olhei pela janela, vi um corpo caído no chão e pulei o mais rápido que pude do leito. Na nossa frente, uma cena que me emociona até hoje. O caminhão do gaúcho no acostamento com o eixo dianteiro fora do lugar pela força da colisão que aconteceu com um automóvel. Nele, havia seis pessoas, quatro adultos e duas crianças.

Na hora do impacto, o rapaz que estava no banco de trás, saiu voando pelo para-brisa e foi o primeiro que vimos. Quando me aproximei, vi que estava vivo, mas tinha um corte muito profundo na sua cabeça que permitia até ver o osso. Próximo do carro, do lado de fora, vi uma mulher morta.

Quando, por azar, o carro começou a pegar fogo e eu não tive outra escolha a não ser abrir o carro e verificar se tinha mais alguém vivo. Consegui abrir as portas de trás e vi que o motorista e os passageiros também morreram. Foi quando olhei no meio do painel do carro e vi o que eu julguei ser uma “boneca”. Só me dei conta de que não era quando toquei o seu pezinho. Até hoje a cena não sai da minha cabeça. O nenê deve ter voado do banco de trás e bateu com o rosto no painel do carro vindo este a penetrar no seu rostinho. Olhei para a parte traseira do carro e pude ver um garoto, de uns doze anos, enfiado atrás do banco de passageiro. Logo pensei: deve estar morto também. Quando pude ver um pequeno movimento dele e aí eu pensei:

– Tiro do carro ou não tiro? A gente aprende que não é para movimentar o acidentado, só que o fogo já estava ficando alto e o carro cheio de fumaça. Eu só rezei a Deus e disse:

– Entre aleijado ou queimado, aleijado e que seja o que Deus quiser. Depois disso, vi o seu Borges apagando o fogo justamente com a água que a gente guardava para colocar no radiador. Por isso, o fogo não se alastrou. Nessa altura do campeonato, já estava todo coberto de sangue, tanto do nenê quanto do menino. Ninguém sabia qual atitude correta tomar. Eu falei com os que queriam ajudar e comecei a por ordem na casa. Como os carros e caminhões não respeitavam o acidente, quase passando por cima de nós, pedi que um dos caminhões bloqueasse a passagem para que pudéssemos socorrer o menino e o rapaz. Uma boa alma apareceu com um jipe e nós embarcamos os dois para o pronto socorro e ficamos na torcida. Peguei meu facão e fui sinalizar o trecho, pois a batida se deu exatamente em um trecho de curva, sendo perigoso alguém “passar” direto em cima da gente. Hoje, eu penso na cena, pois imaginem: um sujeito todo coberto de sangue, com um facão de quase um metro na mão e um monte de corpos no chão? Quando chegou a polícia rodoviária eu relatei ao guarda os óbitos, a situação e a ação minha e dos que ajudaram. l

Edison Rodrigues da Costa é o sétimo classificado no concurso “Herói das Estradas”, promovido pela Goodyear.

Leave a reply