Estradas Difíceis de encarar

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ANTONIO TESSARI

Em pleno século XXI, boa parte dos caminhoneiros percorre estradas nacionais que ainda deixam a desejar, apresentando buracos, problemas no pavimento, na sinalização, na geometria e sem pontos de apoio.

 

A pesquisa da Confederação Nacional do Transporte – CNT de Rodovias 2015 percorreu e avaliou mais de 100 mil quilômetros de rodovias pavimentadas por todo o País, um acréscimo de 2.288 km (2,3%) em relação à pesquisa de 2014. Da extensão total avaliada, 57,3% apresentaram algum tipo de deficiência no estado geral (que inclui a avaliação conjunta do pavimento, da sinalização e da geometria da via), sendo que 6,3% estavam em péssimo estado, 16,1% ruim e 34,9% regular. Possuem condições adequadas de segurança e desempenho 42,7%, que tiveram classificação ótima ou boa no estado geral.

Em relação ao pavimento, foram identificados 48,6% da extensão com algum tipo de deficiência. A sinalização apresenta problemas em 51,4% da extensão avaliada e a geometria da via em 77,2%. Os problemas das rodovias brasileiras tornam-se ainda mais graves com a constatação de que 86,5% dos trechos avaliados apresentam rodovias simples de mão dupla.

Há anos o modal rodoviário tem sido a preferência na movimentação de pessoas e bens no Brasil. No modal de transportes de cargas, possui a maior participação (61%), seguido pelos modais ferroviário (20,7%), aquaviário (13,6%), dutoviário (4,2%) e aéreo (0,4%). No modal de transporte de passageiros, tem 95% de participação.

Ademais, é o principal responsável pela integração de todo o sistema de transporte e contribui significativamente para o desenvolvimento socioeconômico do País.

Dada a sua relevante importância, as mudanças que ocorreram no cenário das rodovias brasileiras, nos últimos anos, ainda não foram suficientes para conferir-lhes as condições adequadas de segurança e qualidade desejadas pelos usuários.

Devido ao desequilíbrio na matriz de transportes de cargas, o modal rodoviário, ideal no deslocamento de pessoas e bens para curtas e médias distâncias, também tem desempenhado seu papel nas viagens de longas distâncias, dependendo sempre de rodovias em condições ideais para a sua utilização.

No entanto, a ausência dessas condições tem elevado os custos de operação dos serviços de transporte, dado que a frequente manutenção dos veículos, as avarias com pneus e o aumento do consumo combustível, entre outros, são consequências do inadequado estado de conservação das rodovias.

Nos últimos dez anos, a extensão da malha rodoviária federal pavimentada cresceu 14,7%, passando de 58,2 mil km no ano de 2005 para pouco mais de 66,7 mil km no ano de 2015.

Na distribuição regional dessa malha, a região Nordeste continua com a maior participação, contando com 30,0% da extensão federal pavimentada, mas com o segundo menor índice de crescimento (10,2%). Já a região Norte, apesar da menor participação (12,8%), apresentou o maior crescimento entre os anos de 2005 e 2015 (40,9%), seguidas pelas regiões Centro-Oeste (19,3%), Sul (13,4%) e Sudeste (6,8%).

A região Norte é também a região do País que tem a maior carência de infraestrutura rodoviária, quando comparada às demais regiões do Brasil. Essa carência se torna ainda mais relevante dado que a região possui importantes rotas para o escoamento da safra de grãos que, se viabilizadas, reduziriam os custos logísticos e aumentariam a competitividade dos produtos nacionais.

A ligação rodoviária entre Marabá e Dom Eliseu, no Pará, formada pela BR-222, é a pior colocada no ranking de 109 ligações da Pesquisa CNT de Rodovias 2015. Logo em seguida, em 108º lugar, está o trecho entre Natividade, no de Barreiras, na Bahia, formado pelas rodovias BA-460, BR 242, TO-040 e TO-280. Essas ligações tiveram o estado geral classificado como ruim. As outras dez piores colocadas passam também pelos Estados de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e pelo Distrito Federal.

Todas as dez melhores ligações, que tiveram o estado geral classificado como ótimo, estão localizadas no Estado de São Paulo, que tem a maior malha rodoviária concedida para a iniciativa privada. Uma delas passa também por Minas Gerais. A que ocupa o primeiro lugar no ranking é a ligação São Paulo Limeira, formada pelas rodovias SP-310, BR-364 e SP-348.

As ligações são trechos formados por uma ou mais rodovias federais ou estaduais pavimentadas, com grande importância socioeconômica e volume significativo de veículos de cargas e de passageiros.

De modo geral, muitas rodovias foram penalizadas, ao longo dos anos, pela ausência de investimentos em manutenção e/ou conservação nos moldes necessários e, cada vez mais, esse fator tem contribuído para a depreciação da malha rodoviária brasileira.

Outro fator preocupante é a pressão crescente do volume de tráfego que, combinado com as más condições das rodovias, implica também o aumento do número de acidentes.

 

Efeitos negativos

 

As condições gerais ruins das rodovias brasileiras reduzem a segurança de quem circula por elas, além de aumentar o consumo de combustível e o tempo de viagem, além do custo de manutenção dos veículos, de lubrificantes, de pneus e de freios. Nas vias onde o pavimento é considerado péssimo, o aumento chega a 91,5%. Em rodovias ruins, o aumento é de 65,6%; em regulares, 41,0%. Nas rodovias com pavimento bom, o incremento foi calculado em 18,8%. Quando o pavimento é considerado ótimo, não há aumento do custo operacional.

Ao considerar a média de toda a extensão de rodovias avaliadas no Brasil, o impacto nesse custo operacional é de 25,8%, sendo que nas vias públicas o percentual é de 29,3% e nas concedidas, de 11,3%. O maior incremento no custo ocorre nas rodovias públicas da região Norte (36,7%), que têm muitos trechos com problemas graves no pavimento. E o menor se dá na malha concedida do Sudeste (7,6%).

Como o custo do transporte, com destaque para o rodoviário, impacta diretamente no preço final dos produtos comercializados no mercado nacional, consequentemente, o nível de preços do País é influenciado pelas condições não ideais da infraestrutura das rodovias.

 

Pontos críticos

 

O número e pontos críticos identificados pela Pesquisa CNT de Rodovias 2015 apresentaram alta de 13,1% em relação ao ano de 2014. No levantamento de 2015 foram identificados 327 pontos, contra 289 em 2014.

Os pontos críticos são situações atípicas que ocorrem ao longo da via e podem trazer graves riscos à segurança dos usuários, além de custos adicionais de operação, devido à possibilidade de dano severo aos veículos, aumento do tempo de viagem e de consumo de combustível. Durante a pesquisa de campo de 2015, foram registrados 230 trechos com buracos grandes, 74 erosões na pista, 19 quedas de barreira e quatro pontes caídas.

 

Usuários das rodovias

 

O caminhoneiro Antonio Tessari, com 60 anos de idade e 40 de estrada, transporta no seu MB 1513 peças para transformadores. “Sou agregado e faço o itinerário Dracena/São Paulo, percorrendo 1.264 quilômetros ida/volta. Boa parte da minha viagem é pela rodovia Castelo Branco, mas pelo tanto de pedágios que possui, ainda existem trechos que precisam ser duplicados. No trecho São Manuel/SP, destino Piracicaba/SP, falta infraestrutura de apoio aos caminhoneiros”.

Com sua experiência Antonio Tessari ressalta também a importância das placas estarem visíveis para que os motoristas  possam identificá-las em tempo hábil. “É importante que elas  transmitam as mensagens de forma correta, estando totalmente legíveis. Algumas rodovias possuem trechos em que as placas têm mato ou estão danificadas”.

O caminhoneiro de Campo Grande, MS, Júlio César Alves, tem 40 anos de idade e 18 de estrada. Ele dirige um Volvo FH 440, configuração frigorífica e percorre a rota Mercosul (Brasil/Chile/Argentina). “As estradas brasileiras em relação às argentinas ainda deixam a desejar. Para se ter uma ideia, percorro na Argentina, com total tranquilidade, 900 quilômetros em um dia. Já no Brasil é mais difícil. As estradas brasileiras têm muitos buracos, curvas perigosas, falta de sinalização e trânsito pesado.

Jorge Ribeiro, 44 anos de idade e 15 de estrada dirige um Constellation 17.280, transportando roupas de São Paulo para o sul de Minas Gerais. “Sei que muitas estradas estão em péssimo estado, mas existem motoristas profissionais que abusam da velocidade”. Ele não nega também que buracos na pista, ondulações e outros problemas obrigam os motoristas a reduzirem a marcha várias vezes durante uma viagem, o que aumenta o consumo de combustível.

Marcos Parrela, 54 anos de idade e 17 de estrada é contratado e dirige um Iveco Hi-Way, transportando combustível de Goiás a São Paulo. “Em Goiás tem rodovia com obras de duplicação paradas, embora o pedágio esteja sendo cobrado. O ponto que está causando maiores transtornos para os motoristas ainda é o trecho da BR-364, entre Mineiros/Santa Rita do Araguaia, seguindo para Cuiabá. “Somente de Santa Rita sentido Cuiabá contei sete acidentes em apenas uma viagem. Outros problemas são os pontos de apoio que praticamente não existem. “A gente só pode parar em um posto de combustíveis se for abastecer”, lamenta.

Assim, com a maior quantidade de veículos em trânsito e a sua maior dimensão, o desgaste das rodovias é mais acentuado, provocando deformações que podem pôr em risco a segurança dos usuários. Para que esse tipo de problema não ocorra, é

necessária a realização de investimentos em adequação e manutenção das rodovias nacionais, bem como na expansão da malha e na construção de rotas alternativas.

Essas medidas seriam capazes de reordenar e redistribuir o fluxo de veículos, proporcionando ganhos tanto econômicos quanto sociais.

 

Tabelas

 

Pavimento

–  48,6% (48.897 km) da extensão pesquisada apresentam algum tipo de problema.

 

– 39,8% (40.139 km) da extensão pesquisa apresentam a superfície do pavimento desgastada.

 

– 79,5% (15.745 km) das rodovias sob concessão tiveram classificação ótima ou boa.

 

 

Sinalização 

 

– 51,4% (51.840 km) da extensão pesquisa apresentam algum tipo de problema.

 

– 60,2% (48.709 km) das rodovias sob gestão pública possuem algum tipo de problema.

 

– 17,4% (16.115 km) da extensão (com placas visíveis) possuem placas desgastadas ou totalmente ilegíveis.

 

– 23,1% (16.724 km) da extensão não possuem placas de indicação.

 

– 37,4% (37.609 km) da extensão pesquisada possuem pintura da faixa central desgastada ou inexistente.

 

– 45,7% (46.014 km) da extensão pesquisada não possuem faixas laterais ou a pintura está desgastada.

 

Geometria

 

– 77,2% (77.787 km) da extensão pesquisa apresentam algum tipo de problema.

 

– 86,5% (87.128 km) da extensão pesquisa são de pistas simples de mão dupla.

 

– 39,6% (39.923 km) da extensão pesquisada não possuem acostamento.

 

– 42,1% (14.711 km) da extensão pesquisada, onde há ocorrência de curvas perigosas, não há placas de adevertências e nem defensas completas.

 

Fonte.: Pesquisa CNT de Rodovias 2015

 

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