Ela tem diesel nas veias

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Escolher a profissão de caminhoneira e conciliar a vida familiar não é nada fácil. No entanto, Cleide Aparecida Santos Balbino é um exemplo que essa combinação dá certo.

A revista Caminhoneiro entrevistou Cleide Aparecida Santos Balbino, que está na estrada há 10 anos. E adivinhe onde foi o ponto de encontro? Em uma conceituada esmalteria, na Agda, localizada no bairro de Diadema, em São Paulo. Quando chegamos encontramos uma profissional de beleza fazendo as unhas de Cleide e a outra cuidadosamente hidratava a sua pele do rosto. Como as demais caminhoneiras que exercem essa mesma profissão, o cuidado com a aparência faz parte do dia a dia delas.

Cleide dirige o seu próprio caminhão Ford Cargo 815 e vem quase todo final de semana a São Bernardo do Campo, ABC, gozar da companhia da sua família e cuidar do visual já que, durante a semana, fica em Araçariguama queé um município do estado de São Paulo para trabalhar. Ela presta serviços para uma empresa que, por sinal, atende uma famosa loja de departamento. Cleide transporta em seu Ford Cargo roupas de cama, mesa, banho e eletrodomésticos percorrendo rodovias e ruas do interior de São Paulo, litoral Norte, litoral Sul, entre outras regiões próximas de São Paulo.

Casada com o caminhoneiro Denilson Balbino que é proprietário de um Ford Cargo 712 e presta serviço à mesma empresa que Cleide, o casal tem três filhos: Weslley Santos Balbino, 26 anos de idade, Phamella Santos Balbino, 24 anos, e Giovanna Santos Balbino, 19 anos.  “Eles não querem ser caminhoneiros. Na verdade, a única que sinaliza para esse caminho é a Phamella que é mãe do Miguel Henrique Balbino Silva, de apenas 4 anos de idade”, diz Cleide que estava acompanhada do lindo neto.

“Ser caminhoneira estava escrito nas estrelas”, diz Cleide lembrando como tudo começou. Formada em Pedagogia, lecionou durante seis anos em uma escola. No entanto, na hora de escolher mesmo a profissão optou pelo que considera uma grande paixão: ser motorista profissional.

“Gosto de caminhão desde pequena e como meu marido trabalhava com isso, resolvi continuar. No início ele ficou preocupado e até com dúvidas se eu iria levar a sério mesmo. Comecei acompanhando ele em algumas viagens. Na época, não tinha habilitação para dirigir caminhão. Quando surgiu a oportunidade fui atrás da minha carteira de habilitação e compramos um caminhão. Com coragem e muita determinação viajei sozinha o Brasil fazendo entregas e enfrentando as adversidades das estradas nacionais. Ficava 15 dias fora, longe de casa, mas ao mesmo tempo coordenava as tarefas à distância, dando orientações para os meus filhos”, lembra com um bonito sorriso.  

Essencial

Faça chuva, ou faça sol, Cleide tinha toda atenção voltada à estrada, mas seu coração sempre esteve bem juntinho de seus filhos, não importando à distância que ela percorria. “Para o meu êxito profissional contei com a ajuda da minha sogra, Maria Martins, e da minha mãe, Judith. Cada uma me ajudava de um jeito. Era muito difícil conciliar as duas coisas”, revela.

Cleide Aparecida também faz questão de elogiar os seus filhos. “Graças a Deus os meus filhos aceitaram bem a minha escolha profissional. Quando tinham alguma dúvida, eles me ligavam para esclarecê-la. Vivemos em um mundo que cobra cada vez mais a independência e proatividade dos nossos filhos. Neste período, o meu filho Weslley aprendeu a cozinhar. Hoje, prepara pratos maravilhosos. Outro dia preparou uma comida deliciosa para mim. Era um arroz de forno com uma costela assada. Já as meninas organizam muito bem uma casa. Todos desenvolveram talentos”, comenta orgulhosa.

O seu lado de professora fala mais alto nessa hora: psicólogos e especialistas em educação infantil afirmam que filhos muito dependentes dos pais têm tudo para virar adultos inseguros, ansiosos e com dificuldades de lidar com os problemas. “Então, no fundo a minha profissão ajudou a formar bem esse lado nos meus filhos”.

Debutar

A sua primeira viagem seguiu destino a Palhoça, SC. O caminhão pertencia a uma empresa e transportava roupas. Apesar de sua ansiedade tudo deu certo. Aliás, a caminhoneira Cleide faz questão de ressaltar que desde o início sempre foi tratada com muito respeito pelos colegas de estrada. “Na maioria a própria profissão acaba gerando uma carência de falta de conversa entre os caminhoneiros. É uma profissão muito carente, na qual ficam dias distantes de seus familiares e sem conversar com os colegas. “Teve um dia que estacionei esperando ser chamada para pegar a nota fiscal. Um motorista começou a falar comigo, contando boa parte de sua vida. Confesso que o bate-papo estava bom, mas já havia me chamado para carregar e ir embora fazer a entrega. Dei um jeitinho com delicadeza e fui dar sequência ao meu trabalho”, lembra que ficou triste ao deixá-lo daquele modo.

Duro mesmo para Cleide são as ausências de pontos de paradas adequados. Atualmente, as empresas estabelecem onde os profissionais do volante podem parar. É tudo muito bem monitorado para garantir segurança. Quando Cleide percebe que o local não tem infraestrutura, ela para no outro ponto autorizado pela transportadora. “Contudo, é muito complicado lugares adequados para os homens imaginem às mulheres”, diz.

A comunicativa e vaidosa caminhoneira também lembra dos determinados tempos para carregar e descarregar a carga. “Sigo sempre horários. Não é uma missão fácil. Temos que fazer o dobro de atenção para evitar acidentes devido ao cansaço.”  

Fã fervorosa de futebol, mais precisamente do Corinthians, acompanha as notícias do seu timão. “Ele só me dá alegrias. Contudo, tem uma coisa que me deixa muito triste nesse Brasil: os políticos. Eles não apoiam a gente. Não temos aquela valorização como deveríamos. A greve que aconteceu, no ano passado, já comprovou a nossa importância e força. Infelizmente, ainda somos vistos como nada. Dependendo da mídia só fala do caminhoneiro quando está envolvido em um acidente. Se ele fez algo errado não podem generalizar a classe. O pessoal da imprensa precisa mostrar mais que transportamos mais de 65% das mercadorias e produtos consumidos pela sociedade”, diz Cleide.

 Conquista

Apesar dos números ainda serem muito baixos, o mercado aceita bem a presença da mulher caminhoneira. E os principais motivos é que são delas serem mais cuidadosas do que os homens na direção, ficarem mais atentas aos cuidados dos caminhões, o que aumenta a vida útil e evita vários acidentes e a própria vaidade com a sua aparência.

“Sou vaidosa mesmo. Adoro estar bonita e bem cuidada. Quando tenho um tempinho vou fazer as minhas unhas, trato da minha pele, arrumo o meu cabelo. Um dia precisava ir a um casamento e acabei chegando muito tarde para me arrumar. Não deu tempo de fazer nada e eu fiquei triste. O que me surpreendeu foi a reação do meu netinho: pegou o algodão e veio correndo tirar o meu esmalte. “Vê como ele já conhece bem a avó”, fala com a voz macia demonstrando o seu amor e carinho pelo neto Miguel. 

 Cleide Aparecida finaliza a reportagem com as unhas impecáveis e uma pele bem cuidada: “Sei que a profissão é desgastante e preocupante. Sei também que conhecemos muita gente, o povo e os costumes de cada região do País. Um beijo grande no coração de todas vocês. Para nós não é fácil estarmos nas estradas. Tem hora que bate a solidão, saudade da nossa casa. Mas toda profissão tem seus ossos do ofício e não é diferente a nossa. Faço também um apelo ao Governo: Olhe para a nossa categoria. O preço do diesel é um absurdo, o frete ainda é baixo, os pedágios altos, as estradas ruins, falta segurança, enfim tenha em mente que sem nós o Brasil não vai para a frente, o mundo não vai para a frente”.

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