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CNT estima déficit de até 250 mil caminhoneiros no Brasil; entenda a escassez do setor

Por Equipe RC em 11/08/2026 às 12:20
CNT estima déficit de até 250 mil caminhoneiros no Brasil; entenda a escassez do setor

Presidente da entidade cita envelhecimento da categoria e migração para o exterior; estimativas de déficit ainda variam entre entidades do setor

Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa, afirmou que o Brasil tem hoje um déficit estimado em 250 mil motoristas de caminhão. O número ajuda a explicar um problema que já aparece no dia a dia de transportadoras: caminhões parados por falta de profissional para assumir a rota, prazos mais apertados e dificuldade para cobrir picos de demanda, como os de safra.

Vale um alerta antes de seguir: essa cifra não é consenso no setor. Outras entidades ligadas ao transporte de cargas, como a FITRANS, têm citado um déficit da ordem de 120 mil motoristas. A própria CNT afirma estar desenvolvendo, dentro de sua agenda estratégica para 2026, um diagnóstico nacional dedicado ao tema — o que indica que a estimativa de 250 mil, por ora, reflete a avaliação da diretoria da entidade, e não um levantamento fechado e publicado.

O que os dados oficiais mostram

Um levantamento com base em dados do Ministério dos Transportes, citado pela CNN Brasil, aponta queda de quase 20% no número de caminhoneiros ativos na última década. Uma reportagem independente da Tecnologística, publicada com base em dados da Senatran, aponta na mesma direção: o país teria perdido 1,1 milhão de profissionais entre 2013 e 2023, retração também próxima de 20% no período. Os números absolutos divergem conforme a fonte, mas a tendência de queda aparece corroborada por duas apurações distintas.

Segundo o levantamento usado pela CNN Brasil, dos 27 estados brasileiros, 19 registraram retração no número de motoristas, com queda mais intensa nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Tocantins e Pará teriam ido na contramão, com crescimento no número de profissionais.

Por que o problema pesa mais no Brasil

Como cerca de 65% da carga nacional é transportada por rodovia, a redução da mão de obra tende a ter efeito direto sobre custo de frete, prazo de entrega e capacidade de atendimento em períodos de alta demanda. É a avaliação de Mariana Carvalho, pesquisadora do Observatório do TCU da FGV Direito SP, em depoimento à CNN Brasil:

"Temos uma matriz extremamente concentrada nas rodovias e, ao mesmo tempo, menos jovens ingressando na profissão. Isso pode trazer impactos para o custo do frete, atrasos e redução da capacidade operacional."

Ainda segundo Vander Costa, além do envelhecimento da categoria e da baixa renovação geracional, o país perderia motoristas para o exterior — em especial para Portugal, onde o pagamento em euro teria se tornado um atrativo para profissionais brasileiros.

Os motivos apontados pelo setor

Na mesma reportagem, representantes de entidades do setor atribuem a evasão a um conjunto de fatores: jornadas longas e distância da família, insegurança nas estradas, remuneração considerada incompatível com as dificuldades da profissão e falta de perspectiva de crescimento. Soma-se a isso a dificuldade e o custo para tirar as categorias D e E da CNH, apontados como uma das principais barreiras de entrada para novos motoristas.

Há também concorrência direta com outras ocupações. Segundo Lauro Valdivia, assessor técnico da NTC&Logística, em depoimento à CNN Brasil, parte dos motoristas tem migrado para transporte por aplicativo e construção civil — atividades com jornada mais flexível e maior proximidade de casa. Já Janderson Maçaneiro, o Patrola, presidente da Associação Catarinense dos Transportadores Rodoviários de Cargas, relacionou essa concorrência ao fato de a perda de profissionais ter sido maior no Sul e no Sudeste, regiões onde, segundo ele, a oferta de trabalho por aplicativo é mais forte.

O papel do gerenciamento de risco

Um obstáculo menos discutido, na avaliação de Patrola, está nas exigências das seguradoras. Segundo ele, restrições como a impossibilidade de levar familiares ou aprendizes durante a viagem afastariam motoristas e dificultariam a formação de uma nova geração na profissão. O mesmo sistema, ainda de acordo com o dirigente catarinense, também dificultaria a contratação de motoristas com registros negativos ou processos judiciais, mesmo quando sem relação com a atividade de transporte. Representantes de seguradoras ou de entidades do setor de gerenciamento de risco não foram ouvidos nessa reportagem.

Como as transportadoras estão reagindo

Segundo relatos reunidos pela CNN Brasil, transportadoras têm ampliado a capacidade dos caminhões para amenizar o impacto da falta de profissionais, levando mais carga com o mesmo número de motoristas. A CNT afirma ter reforçado programas de qualificação e de apoio para obtenção das categorias D e E da CNH — segundo Vander Costa, o custo para qualificar esses profissionais teria caído desde as últimas mudanças nas regras de emissão da carteira. A entidade cita ainda premiações para caminhoneiros da ativa e a contratação de motoristas venezuelanos como parte da estratégia para atrair mão de obra.

Nenhuma dessas medidas resolve o problema de origem: enquanto a entrada de jovens na profissão continuar baixa e as condições de trabalho na estrada seguirem como estão, a tendência de queda deve se manter. O tamanho exato do déficit, no entanto, ainda não tem número consensual entre as entidades do setor — o que reforça a necessidade de acompanhar o diagnóstico nacional que a própria CNT diz estar preparando para 2026.


Nota sobre esta reportagem: o texto foi produzido com base em reportagem da CNN Brasil (republicada pelo SETCESP em 06/08/2026), que reuniu as declarações de Vander Costa (CNT), Mariana Carvalho (FGV Direito SP), Lauro Valdivia (NTC&Logística) e Janderson Maçaneiro (Associação Catarinense dos Transportadores Rodoviários de Cargas). A Revista Caminhoneiro não conduziu entrevistas próprias com essas fontes para esta publicação. O dado de queda de quase 20% em dez anos tem apoio em uma segunda apuração independente (Tecnologística, com base em dados da Senatran). Já a estimativa de déficit de 250 mil motoristas diverge de outras citadas no setor (cerca de 120 mil, segundo FITRANS) e não corresponde, até o momento, a um estudo formal e publicado pela CNT — recomenda-se confirmação direta com a assessoria de imprensa da CNT antes da publicação, caso o Portal RC quera apresentar esse número como dado consolidado.

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