Preparados para enfrentar um novo ano e seus desafios

Você pensa que caminhoneiro nasce nas estradas esburacadas, nas noites sem dormir e nos riscos de ser assaltado. Não. Caminhoneiro nasce no ventre de uma mulher que espera o marido voltar para casa, não importa por quanto tempo.

A vida do caminhoneiro é na rua, nas estradas, nas intermináveis filas de cargas e descargas. Casa, para muitos, é apenas um ponto de referência. Por isso, quando têm tempo de voltar para ela, aproveitam ao máximo.

E em um desses momentos, a revista Caminhoneiro acompanhou um encontro, em Cotia-SP, em dezembro. “Esse encontro foi feito para comemorar o final do ano, com a família e com os companheiros de profissão”, explicou Osvaldo Morini, proprietário da Morini´s Car e organizador do evento. “O encontro aconteceu no km 25, da rodovia Raposo Tavares, por um pedido dos próprios caminhoneiros. Foi o último do ano. Começou às 9 horas e o pessoal passou o dia curtindo com a família, fazendo churrasco, se divertindo”.

Passeando entre os caminhões, uma cena linda e inusitada. Sentada no chão, embaixo de um enorme baú para se proteger do sol, duas mulheres: Rose Rodrigues e Jéssica Prestes. O que saltava aos olhos era a enorme barriga de Jéssica. Naquele ventre estava um pequeno caminhoneirinho. Aos oito meses de gravidez, Jéssica acompanhava o marido. “Meu marido é caminhoneiro, transporta container de Santos para todo Brasil”, explicou ela, se ajeitando melhor. Perguntada o porquê vir na festa, embaixo de um sol de mais de 30º graus, ela responde rápido, com um lindo sorriso no rosto. “Para que o garoto goste da profissão desde o ventre. Será caminhoneiro como o pai”, respondeu orgulhosa.

Wesley Santos é o pai do garotão que nasceu em janeiro. Com 27 anos de idade e apenas três de profissão, transporta container para todo Brasil e concorda com a esposa. “Tem que trazer o filho, mesmo no ventre, porque a profissão está no sangue, passando de pai para filho”.

Consciente, Santos explica que a profissão de caminhoneiro é difícil porque ninguém respeita. Justamente por isso é realista. “Meu filho seguirá a profissão que quiser”, diz sendo imediatamente corrigido pela esposa que grita: vai ser caminhoneiro.

E conversando com as duas mulheres, surgiu uma grande diferença entre o que há de pior na profissão de caminhoneiro. Para Jéssica, casada há apenas três anos, a pior coisa é ausência do marido que viaja muito. Para Rose, a pior coisa na profissão são os pedágios. “Tenho 21 anos de casada. Caminhoneiro tem fama de mulherengo, mas quem ama confia. Meu marido sai de casa na segunda-feira, só falta na sexta. Mas está ganhando o dinheiro para sustentar nossa família”.

Essa desvalorização do caminhoneiro também é sentida por Eduardo do Prado, dono de um VW carinhosamente apelidado de X-Tudo, por ter o câmbio e motor adaptado. “Sou caminhoneiro graças a Deus, desde menino, a família inteira trabalha com caminhão”, diz com um grande sorriso no rosto, apoiando-se no seu caminhão com o qual transporta caçambas. “As pessoas não respeitam a gente pela profissão que temos. Acham que a gente é qualquer um. Às vezes, você precisa fechar a rua para arrumar a caçamba e nem todo mundo entende.

Por ter que esperar 5 minutos, o pessoal acha que o mundo vai acabar”.

Prado diz que apesar desses contratempos, dá para viver da profissão, mas trabalhando muito. Ele trabalha basicamente à noite, porque de dia existem as restrições de circulação. Só pode rodar das 21 às 5 horas. E à noite tem o problema de assaltos. “Os ladrões acham que a gente anda com dinheiro. Deixa a caçamba e recebe o dinheiro”, ri Prado. “Não é assim. O cliente deposita na conta. Mesmo assim já fui assaltado quatro vezes. O cara levou meus documentos, celular e o dinheiro da carteira. Ainda ficou gritando querendo saber onde estava o cofre”.

Mas para ele, pior do que ser assaltado é o desrespeito das pessoas com o caminhoneiro. “Já cheguei a ver pessoas com família, criança pequena no carro e o cara me ofender porque eu estava trabalhando”, diz muito chateado. “Uma moça me xingou, mandou tirar `essa merda´ da frente. Mas ela esquece que é `essa merda´ que tira os entulhos da reforma da casa dela”. Ao despedir-se, Prado mostra uma frase pintada em sua camiseta que ilustra bem a vida dos caçambeiros: “Avisa o dia que a noite é pouca”.

Depois de rever os amigos, Milton Domingues Portella já estava indo para casa com seu F13000 adaptado para 14000, com o qual puxa caçamba de entulho. “Depois de nove anos consegui comprar meu caminhão”, diz orgulhoso. “Tenho 21 anos de motorista de ônibus. Atualmente dirijo um ônibus articulado. Tenho apenas cinco caçambas. Precisaria ter no mínimo 20 para poder trabalhar só com caçambas. O ônibus articulado é mais difícil dirigir porque é muito comprido, vacilou você bate”.

Experiente, explica para o jornalista e para o seu filho, Júnior, que na caçamba tem que tomar muito cuidado, porque se não, também bate. “Eu sempre desejei ter um `Júnior´ e acabei tendo”, diz sorrindo e olhando para o filho. “Esse caminhão será dele, a minha herança. Por isso, já estou circulando com ele nos encontros e no dia a dia. E como esse era o último encontro do ano, resolvi aparecer”.

Trabalhar de madrugada não é fácil. Por isso, quando se tem uma oportunidade de relaxar entre amigos todo mundo quer aproveitar. É o caso de Eric Crespim de Melo, 30 anos de idade e caminhoneiro há seis. Com um Scania T, 94, transporta areia e pedra. Estava no Encontro com a esposa e dois filhos. “Trabalho de madrugada transportando areia e pedra, entre seis e sete horas por dia porque o trabalho está difícil”, lamenta Melo. “Além de difícil, tem os guardas que vivem perturbando por causa da altura da carga e do peso do caminhão”.

Experiente, com 30 anos como caminhoneiro, João Carlos Canova, já dirigiu carroceria, carga seca, caçamba e agora com um Ford F14000, ano 91, transporta terra com sua caçamba.

“Dá para viver disso, está difícil, mas estamos conseguindo pagar os carnês”, afirma dando uma grande risada. “Tenho alguns clientes que pedem para que eu faça o serviço de limpeza de terrenos, retirada de entulho. A maior parte dos clientes é empresas e construtoras que a gente presta serviço”.

Ao lado de Canova, Jorginho, o filho apaixonado pela profissão, mesmo sem ter enfrentado nenhum dos problemas que o pai enfrentou como atoleiros, pneus furados, assaltos, já decretou: quero ser caminhoneiro. “Essa profissão é maravilhosa”.

“O movimento caiu bastante”, lamenta Canova, dizendo que a mulher adora isso. “Assim ela fica mais tempo comigo”, ri olhando para a esposa Núbia. “Quando conheci o João, ela já era caminhoneiro”, lembra a esposa. “Acho a profissão linda, adoro caminhão e se pudesse, vivia com ele dentro do caminhão”, diz sorrindo e abraçando o marido.

Perguntada se, devido à profissão, ele não vivia sujo, ela respondeu dando um abraço forte no marido. “Ele acorda de madrugada, chega sujo de barro, com aquele cheiro de óleo diesel, mas eu adoro. Ele diz que eu sou Maria Diesel. Tem a Maria gasolina e eu sou a Maria diesel”.

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