Revista Caminhoneiro Não somos criminosos
Quarta-feira, 23 Maio 2012

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Não somos criminosos

publicado em: 01/04/2011

"Meu marido é caminhoneiro há mais de 20 anos e nunca se envolveu com drogas nem com outras coisas. Ele é honesto, honrado, trabalhador e tira o sustento de nossa família dessas estradas esburacadas e esquecidas pelo Governo". Este foi um dos lamentos que ouvi um dia após o programa Fantástico, da Rede Globo, ter exibido uma reportagem mostrando 'a realidade da vida do caminhoneiro'. Fiquei extasiado e chocado ao mesmo tempo com a matéria. Extasiado por ver uma reportagem muito bem produzida, com repórter, motorista, produtor e seguranças. E fiquei chocado pelo fato de uma empresa como a Rede Globo esquecer do princípio básico do jornalismo que é ouvir os dois lados. Nenhum caminhoneiro foi ouvido. Oras, é fácil apontar os efeitos de um sistema de transporte ineficiente. Mas, por que a emissora não aproveitou a importância do tema e questionou os motoristas sobre o motivo de usarem anfetaminas (rebite) e drogas mais pesadas?

Há cinco anos fiz uma reportagem sobre o uso de rebite e alguns caminhoneiros confessaram que usavam. Naquela época, alguns já falavam que a cocaína estava entrando no lugar do rebite.

Não estou defendendo ninguém. Sei que o uso de anfetamina é frequente. Porém, o uso de cocaína e outras drogas também estão presentes em várias profissões, como, por exemplo, cantores, artistas, atores e atrizes e até mesmo entre jornalistas. Mas isso não significa que todo jornalista seja um viciado, assim como nem todo caminhoneiro é 'rebitado'. Isso ocorre com a minoria que não suporta a pressão das cargas com horário, a solidão das estradas e os baixos salários.

Nada justifica um caminhoneiro tomar rebite colocando a sua vida e a de outros em risco. Porém, como um ser humano pode encher o caminhão de melão em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e só parar para abastecer e quando chegar em São Paulo? A Globo levantou um assunto muito importante, porém, perdeu a chance de ouvir o caminhoneiro e saber o motivo que o leva a tomar rebite. O presidente da NTC e de um sindicato deram uma pista: reduzir a jornada de trabalho.

Em país civilizado, motorista dirige no máximo cinco horas, descansa 45 minutos, pode dirigir mais cinco horas e a partir desse ponto deve descansar 11 horas até começar voltar para a estrada.

Por que não se implanta esse esquema no Brasil? Enquanto os caminhoneiros forem obrigados a virarem a noite para cumprir prazo, os traficantes disfarçados de comerciantes à beira das estradas continuarão a agir. Até que outro programa seja feito e as autoridades desencadeiem mega operações para dar uma resposta à sociedade.


Redação: Francisco Reis


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