Falta de vergonha
publicado em: 01/08/2011
Quando eu acho que as baixarias dos políticos chegaram ao limite, eles me surpreendem. Fazem outras maiores. A Câmara Municipal de São Paulo aprovou o reajuste salarial do prefeito Gilberto Kassab e de seus 27 secretários, a partir de 1.º de janeiro de 2012. O salário do prefeito, que foi aumentado em fevereiro de R$ 12 mil para R$ 20 mil, em janeiro, subirá para R$ 24 mil e os salários dos secretários, de R$ 5,5 mil para R$ 19,4 mil. Senhor prefeito e secretários, vocês não têm vergonha na cara de aceitarem esse aumento? Para que 27 secretários?
O deputado Paulo Maluf aluga um prédio (sem ter participado de concorrência pública) para o Governo, por R$ 1,3 milhão por mês.
Depois dessas notícias, dá vontade de chamar a polícia, mas, se fizer isso, terei nova decepção. O Código Civil Penal mudou e por uma triste coincidência, a única mudança que foi rejeitada pelos senadores é a que previa o fim das prisões especiais para autoridades e para pessoas com nível superior, incluindo os nobres cavalheiros que aprovaram a alteração.
Não se pode mais usar algema, a menos que haja resistência. Os efeitos disso já estão sendo sentidos. Um ladrão foi preso com cartões de banco roubados, mas como era primário, foi solto. Uma dupla que roubava carcaça de caixas de câmbio foi presa. Um dos ladrões foi solto e o outro, só ficou preso por não ter documentos. Ou seja, roubar pode, andar sem documento não.
E o absurdo total, o cúmulo da cara de pau, (ou seria cara de asfalto?) foi a de um dos demitidos do Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit), que falou em cadeia nacional para mais de 30 emissoras que "diante do volume de dinheiro que passa pelo Ministério dos Transportes, o que foi desviado é uma quantia irrisória".
Diante de tudo isso, não há como não se lembrar do discurso que Ruy Barbosa fez em 1914, se dirigindo aos senadores. A falta de justiça, senhores senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação. A sua grande vergonha diante do estrangeiro é aquilo que nos afasta os homens, os auxílios, os capitais. A injustiça, senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem. Cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte. Promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas. De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ainda não tenho vergonha de ser honesto, pois meu pai me ensinou a ser honesto e porque tenho vergonha na cara.
Redação: Francisco Reis
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