Caminhoneiro Papai Noel
publicado em: 04/01/2011
Para enfrentar estradas esburacadas, ladrões (armados e de colarinho branco), falta de infraestrutura, falta de respeito, e até falta de onde poder rodar, só mesmo tendo um saco do tamanho do saco do Papai Noel. O caminhoneiro Papai Noel é aquele que tem uma enorme paciência e ajuda a todos, muitas vezes arriscando sua própria vida. Vi um deles pela televisão. Um caminhoneiro utilizando seu caminhão para resgatar pessoas ilhadas pela enchente, em Itajaí, SC. Ele salvou muitas pessoas mesmo correndo o risco de perder o caminhão.
Em uma viagem de Cuiabá a Novo Progresso, PA, em um comboio com quatro bitrens transportando 160 mil litros de diesel para uma usina termoelétrica, conheci outro "Papai Noel". A segunda carreta de um dos bitrens começou a escorregar para o canto da estrada de terra cheia de lama. O caminhoneiro freou e ao tentar prosseguir, o tanque escorregou mais um pouco e começou a entortar a composição. O tanque ameaçava tombar, com 40 mil litros de diesel.
Depois de uma hora tentando achar uma solução, surge um caminhoneiro Papai Noel transportando um trator em cima de seu caminhão. O bitrem estava no canto da estrada, não impedindo a passagem. Porém, esse caminhoneiro se dispôs a ajudar. Desceu do caminhão, na estrada, no meio da lama, amarrou um cabo de aço no lado da carreta e em seu caminhão. Com muito cuidado, foi puxando a carreta para o meio da estrada enquanto o motorista do bitrem puxava para frente. Conseguimos. O bitrem pôde seguir viagem levando combustível para a usina que alimentava a cidade. Papai Noel caminhoneiro se despediu e seguiu pela estrada esquecida pelos homens do Governo.
E um terceiro Papei Noel caminhoneiro, que me levou a escrever essa crônica, me mostrou toda sua habilidade e responsabilidade protegendo a vida de imprudentes ao volante. Estava na rodovia Raposo Tavares, km 17, trecho urbano, na faixa da direita. Por mim passou um caminhão baú, a 70 ou 80 km/h. Estávamos indo praticamente juntos, quando de repente, um motorista saiu da faixa da esquerda e cruzou na frente do caminhão para entrar em uma saída à direita. O caminhoneiro deu um toque no freio, jogou tudo para a esquerda. O baú balançou, balançando a cabine, mas o caminhoneiro foi firme e segurou o conjunto até que ele voltasse ao normal. O carro passou pela minha frente, quase batendo, e entrou em uma rua lateral. Se não fosse a habilidade do caminhoneiro e, principalmente, responsabilidade em proteger não apenas sua vida, mas também a dos outros, ainda que estes estejam fazendo besteira, poderia ter acontecido um grave acidente.
Por isso eu digo que boa parte dos caminhoneiros pode ser comparada com Papai Noel. Não quero que seja erguida uma estátua em homenagem a eles. Eles nem têm tempo de ver. Quero sim que lhe seja dado o devido valor. Não com uma medalha, mas com a aprovação de leis que defendam sua categoria, proteja-os contra ladrões e receptadores, que instituam horários decentes e acabe com a exploração de seus serviços. Para que eles tenham tempo de ficar com suas famílias. Afinal, caminhoneiros também têm família, ou será que os incompetentes de Brasília acham que eles são filhos de chocadeira? Quem sabe neste ano que está chegando, eles possam "presentear" mais pessoas.
Redação: Francisco Reis
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