Mais estradas para o algodão
publicado em: 01/04/2011
Depois de sofrer uma queda de 25% na safra 2009/2010, o aumento de 40% nessa colheita ( 2010/2011) pode ser prejudicado pela falta de infraestrutura com um sistema rodoviário saturado.
Há muito tempo os empresários reclamam da falta de estradas no Brasil. O país adotou o modelo de transporte rodoviário que hoje responde por mais de 70% de tudo o que se produz e vem mostrando sinais de exaustão.
"Como só temos a opção da rodovia, seria necessário pelo menos duplicá-las, nem que fosse apenas nas áreas de produção como algodão e soja entre outras", fala Sérgio De Marco, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão e presidente da Câmara Setorial de Algodão e seus Derivados, órgão do Ministério da Agricultura. "As estradas do Mato Grosso estão saturadas, com muito congestionamento. Hoje, de Rondonópolis à Cuiabá, uma distância de 200 quilômetros, demora cinco horas de tanto caminhão. Não se consegue
ultrapassar e acaba demandando um grande tempo. Esse é o grande gargalo do transporte de algodão". Os principais polos de produção do algodão são os estados do Mato Grosso, Bahia e Goiás e cidades como Campo Verde, Sorriso e Sinopse. Dessas localidades, o algodão segue para os portos de Santos, SP, ou Paranaguá, PR.
Devido ao grande volume de chuva em 2009, a safra 2009/2010 foi prejudicada resultando em 1,1 milhão de toneladas. Os agricultores investiram mais, aumentando a área plantada de
825 mil hectares para 1,3 milhão de hectares. Com isso, a perspectiva é de colher dois milhões de toneladas na safra 2010/2011 e conseguir não apenas cobrir a perda de 2010, como
também ganhar um bom dinheiro.
"Os mercados internacionais estão puxando o preço do algodão para o alto", analisa De Marco. "Isso porque houve quebra na safra do hemisfério Sul pela estiagem e os produtos da
Ásia quebraram por causa das chuvas".
Segundo ele, a demanda está muito aquecida na Ásia, em especial na Indonésia e na China e também, no Brasil.
Longo caminho
Mas até o algodão chegar às lojas, em forma de tecido ou roupa, ele percorre um longo caminho, que começa na colheita. A modernização da lavoura do algodão contribuiu para a utilização, em larga escala, da mecanização do cultivo, sendo a colheita através de colheitadeiras automotrizes, um dos principais segmentos necessários para viabilizar a exploração da cultura em grandes áreas. A colheita mecanizada é extremamente vantajosa em relação à manual, pois os custos operacionais são reduzidos, há melhoria na qualidade do produto colhido, a colheita é feita com maior rapidez, o teor de impurezas é menor,
evita a presença de contaminantes, além de economia de mão-de-obra nas operações de recepção do produto colhido, pesagem e utilização de sacarias, o que inviabilizaria grandes
extensões de cultivo.
As colheitadeiras de algodão são equipadas com cabines que proporcionam ao operador conforto operativo permitindo, através da eletrônica embarcada, o monitoramento completo da máquina em operação, inclusive da colheita de cada linha e desempenho de cada unidade colhedora, além de total concentração do operador para manter a máquina em velocidade adequada de trabalho e do manejo dos comandos, com eficiência e rapidez.
Com o deslocamento da máquina, os elevadores de talo elevam, reúnem e conduzem as plantas para os tambores colhedores. A extração da fibra dos capulhos abertos é feita através de fusos giratórios previamente umedecidos por meio das escovas umidificadoras, que estão ligados a barras apanhadoras, as quais, por sua vez, formam os tambores apanhadores. Uma vez separado o algodão, um sistema de transporte pneumático acionado por turbinas envia o ar aos condutos de elevação originando, assim, uma sucção, que absorve o algodão das unidades colhedoras conduzindo-o até o cesto. Neste processo, ocorre uma pré-limpeza do algodão, de maneira que a corrente de ar, juntamente com o pó e resto de folhas, saem ao exterior enquanto o algodão se dirige ao cesto.
O Brasil tem tudo para recuperar os prejuízos da safra de algodão da colheita passada. Os agricultores investiram e ampliaram as áreas de plantio. Porém, todos os esforços podem parar na falta de estrada para escoar a produção.
O algodão é descarregado lateralmente em cesto basculante, com levantamento vertical e descarga horizontal, controlado por meio de esteiras dosificadoras. A capacidade de carga do cesto é de 32,5m3, o que corresponde a aproximadamente (172@).
As turbinas de ar são responsáveis pela sucção e impulsão do algodão no cesto e trabalham em alta velocidade. Quando o algodão em rama está sendo conduzido para o cesto da máquina, passa por um processo de limpeza proporcionado pelos pentes, que devem estar bem regulados.
O cesto para o depósito de algodão é composto de telas que devem estar sempre limpas, para assegurar um fluxo de ar de dentro para fora, eliminando parte das impurezas do algodão. Aconselha-se realizar a cada dois descarregamentos, a limpeza externa das telas e, internamente, meio de vassouras, a do cesto.
Transporte
Quando a colheitadeira está com o cesto cheio de algodão, ele deverá ser esvaziado em um reboque especial tipo basculante, denominado Bass Boy, no mesmo local em que se está
colhendo. O Bass Boy é constituído de um chassi, dotado de uma rodagem dupla e cesto confeccionado em tela e chapa metálica tracionado por um trator de média potência (80 cv). O serviço do Bass Boy consiste em receber o algodão da colheitadeira, carga leve, porém, de grande volume e transportá-lo até uma prensa compactadora e abastecê-la. A capacidade do Bass Boy é de pouco mais de um cesto da colhedeira, aproximadamente 200@.
A prensa compactadora do algodão colhido apresenta configuração similar a um caixão metálico reforçado, sem fundo, montado sobre pneus, suas laterais são reforçadas e, sobre elas e na parte superior, está vinculada uma estrutura que se desloca longitudinalmente e que agrega um pistão com macieira, para pressionar a massa de algodão em todo o compartimento. O operador da prensa se situa em uma plataforma externa na parte dianteira da máquina e o funcionamento ocorre a cada descarregamento do Bass Boy. Normalmente são necessários quatro cestos cheios da colheitadeira para formar um módulo ou fardão cujo peso médio é de 10 toneladas, podendo alcançar densidade de até 200 kg/m3.
Os fardões são a forma de se armazenar a produção na própria lavoura, situando-se, de preferência, nas cabeceiras dos talhões, em local estratégico e de fácil acesso. Caso o beneficiamento se realize na própria fazenda produtora de algodão, os fardões ou módulos serão, movimentados e transportados por um caminhão especial, chamado transmódulo e se for realizado por uma algodoeira prestadora de serviço distante da fazenda produtora, a movimentação dos fardos na lavoura ficará por conta do transmódulo e o transporte, caberá a uma carreta tipo prancha.
A função do transmódulo é agilizar o processo de transporte dos fardões até a algodoeira. O funcionamento do transmódulo consiste em autocarregar a sua plataforma com o fardão, por intermédio de 11 correntes paralelas e roletes de apoio, transportá-lo a determinado lugar e descarregá-lo na prancha, no pátio da algodoeira ou na área de atuação da piranha. O transmódulo é um caminhão adaptado que contém uma plataforma de 11,3 m de comprimento, com capacidade de transporte de 10 toneladas. A área de algodão atendida por um caminhão transmódulo é de 2000 a 2500ha. Um transmódulo custa cerca de R$ 300 mil.
"Esses fardos podem ser transportados em contêineres", explica Sérgio De Marco. "Mas como estamos com falta também de contêineres, estamos embarcando no que aparecer, como carretas, treminhões, bitrens, desde que tenham a capacidade de transportar entre 25 e 26 toneladas".
A colheita do algodão começa entre março e maio no Brasil, em meio a um cenário internacional bastante favorável.
Com a forte demanda pelo produto,principalmente na China e a redução da oferta em função de problemas climáticos em vários países, o preço do algodão avançou 171% nos últimos 12 meses.
A maior parte da produção brasileira deve entrar no mercado em agosto, mas cerca de 60% da atual safra já foi comercializada antes da colheita. Mas, o Brasil ainda precisa ter uma logística de transporte preparada para acompanhar toda essa evolução de produção agrícola nacional. Infelizmente, ainda ela deixa a desejar.
Redação: Francisco Reis
Foto(s): Divulgação Abrapa, Carlos Rudiney
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