As causas
publicado em: 01/01/2012
Norival de Almeida Silva, presidente do Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens do Estado de São Paulo, Sindicam-SP admite que existem drogas nas estradas, mas diz que quem a oferece é um traficante, irresponsável, assassino, não tem nada de bom.
Ele explica que hoje, dentro da esfera do transporte, há de tudo o que se possa imaginar, o bom, o ruim, o médio. Por outro lado, existe a parte financeira, que é a receita, a despesa, o frete baixo, o longo percurso, o percurso de exploração, que é aquele que o embarcador pede para o motorista fazer em um tempo impossível de ser cumprido.
"Tudo isso leva os caminhoneiros a apelarem para as drogas, seja qual for", explica o presidente do Sindicam-SP, que tem uma ideia para acabar com as drogas na estrada. "O caminhoneiro deveria fazer no mínimo dois check up por ano para comprovar se usou droga ou não. Ninguém sai de São Paulo para o Mato Grosso para pescar, sem levar a carteira de licença de pescador. Por que ele não levaria sua carteirinha de saúde para provar que 'está limpo'?", questiona o presidente do Sindicam-SP.
A ideia é contestada por Emilio Dalçoquio por experiência própria. "Na minha transportadora fazemos exames mensais anti-doping. Tem motorista que para de usar/cheirar 15 dias antes para se livrar do flagrante", conta Dalçoquio. "Chegamos a pegar motorista bêbado no volante e não demitimos porque ele 'não foi obrigado a fornecer provas contra ele mesmo'. Não podemos confundir democracia com anarquia, nem esquecermos que direitos humanos são para humanos direitos".
Norival Silva está esperançoso com a aprovação do Projeto de Lei 319 (PL 319) que deverá eliminar aberrações como rodar 50 horas sem parada, fazendo uso de qualquer coisa, sem fiscalização, sem local para estacionar e descansar e com muitos pontos de venda de drogas. "A droga chega a qualquer lugar", garante Silva. "O problema é que o organismo acostuma com uma quantidade e o caminhoneiro começa a procurar mais forte, mais forte, e o cemitério está muito perto".
"A cocaína dá mais dinheiro que o rebite", afirma Fernando do NascimentoAndrade, 36 anos e seis nas estradas. Dono de um Scania 113, diz que o rebitesumiu das estradas para a cocaína e outras drogas entrarem. "Na rodovia Fernão Dias, é mais fácil comprar droga do que pão".
"O rebite foi tirado das estradas para que os traficantes pudessem comercializar a cocaína", confirma Lourival Campos Cardoso, 51 anos de idade, 25 de caminhoneiro que dirige um Scania 340, de uma transportadora. "O pessoal precisa de droga para continuar a noite e acaba comprando cocaína. O culpado são as empresas que liberam o caminhoneiro com 27 toneladas de São Paulo para ir em 10 horas direto para Curitiba, PR, uma distância de 600 km".
Emilio Dalçoquio rebate a opinião do caminhoneiro. "Hoje, um caminhoneiro mediano tem cinco ofertas de emprego", afirma. "Um caminhoneiro bom tem dez ofertas e um excelente motorista tem uma infinidade de ofertas. Por isso, não justifica o motorista dizer que 'toma droga porque o patrão manda'. Ninguém precisa ser drogado".
Cláudio Moreira dá um exemplo prático de que se drogar não vale nada. "O cara que toma cocaína e essas coisas todas é por sem-vergonhice", garante o caminhoneiro. "Se entrou no vício é difícil sair, mas não adianta nada porque ele acaba chegando mais tarde do que os outros. Isso porque ele para nas estradas, nas 'bocadas' para comprar a droga, para cheirar e aí o tempo se vai".
O presidente do Sindicam-SP diz que quem usa droga é um maluco. "Nesse meio, temos algumas pessoas de cabeça fraca entrando nesse esquema, fazendo desgraça, matando famílias e se matando", diz Silva. "Na minha base, com certeza muito poucos caem no vício. Alguns que fazem longa distância apelam para isso, mas são poucos".
Ele sugere que para tirar as drogas das estradas, além dos exames periódicos, as entidades sindicais, federação e comunidade, devem levar o conhecimento do direito do cidadão, um pouco mais no quintal para que ele saiba. "Temos que ter audiências públicas, em escolas, em cidades com mais de 100 mil pessoas, trazendo as crianças para o trânsito para que elas sejam o motorista, o guarda, o 'marronzinho' e falar sobre tudo, inclusive drogas. Ensinar as crianças para corrigir os pais", diz o presidente do Sindicam.
Esse pensamento tem um exemplo prático em Lourival Cardoso que afirma nunca ter tomado droga por ter sido criado longe delas e ter recebido informações sobre os efeitos que elas causam.
No outro extremo, Emilio Dalçoquio acusa algumas transportadoras de não se importarem de que existam drogas junto com seus motoristas para que eles cumpram os horários. "As empresas entregam caminhões novos, com 500 hp, câmbio automático e mais uma série de equipamentos e não controlam nem a velocidade nem a jornada de trabalho", desabafa Dalçoquio. "Eles ignoram, fingem e mudam de assunto quando se fala em drogas debaixo do colchão do caminhão. Isso porque o caminhão está segurado, e se o motorista bater, morrer ou matar, pouco importa, o seguro paga. Enfim, um assassino camuflado de gente boa".
O que parece absurdo tem a comprovação de Lourival Cardoso. "No sul, havia uma empresa que pagava a carteira de motorista para garotos de 18, 19 anos. Depois de habilitados, colocava um caminhão na mão deles, uma caixa de rebite, mandava acelerar e avisava que se batesse, tinha outro caminhão no pátio", lembra Cardoso.
Como parar
Usa droga quem quer
Redação: Francisco Reis
Foto(s): Roberto Silva e Thiago Piffer
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