Revista Caminhoneiro Eu fiz a minha parte
Quarta-feira, 23 Maio 2012

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Eu fiz a minha parte

publicado em: 01/03/2011

Essa história poderia acontecer com qualquer um, mas foi acontecer justamente comigo, uma mulher caminhoneira. Cláudia Valente (dizem que não é à toa eu levar esse adjetivo no nome), 42 anos, sergipana de Quatro Costados, família guerreira, das barrancas de areais lindas, mas que pouco trouxe de valia para os meus. Todos tiveram que sair pelo mundo, cada um com um destino diferente. O meu foi esse, o de comandar um caminhão pelas estradas brasileiras. Já vi e presenciei de tudo, mas poucos se atreveram a avançar o sinal. Viam no meu olhar que de nada adiantaria aquele papinho de ?cerca Lourenço?. Respeitada, gosto muito do que faço, ainda mais pelas histórias que vivo e outras que tomo conhecimento.

Uma delas é a que mais me emociona. Todos ao meu redor já a conhecem de cor e salteado, devido às vezes que vou repetindo por aí. Um jornal lá da minha terra contou isso tim-tim por tim-tim. Relato novamente aqui e agora. Passava sempre num posto e lá meio que perdidão, um mendigo, desses de olho estalado, falante e com todos os documentos no bolso. Naquele mundo dominado por homens, ninguém teve a sensibilidade de escarafunchar a vida do dito cujo, de nome bonito e pomposo, Getúlio. Eu via que ele não era uma pessoa qualquer, um mendigo como tantos outros.

Aquilo foi me chateando, como nada faziam por ele além da comida, dada por muitos, fiz mais, peguei seus documentos, levei até a empresa que trabalho, copiei e enviei por e-mail para endereços virtuais da cidade onde ele nasceu no interior gaúcho. Estou na estrada na manhã seguinte e toca o celular. Paro o caminhão e do outro lado da linha um funcionário da prefeitura daquela cidade me dizendo conhecer Getúlio. Não demorou muito e outra ligação, dessa vez um locutor da rádio de lá e dou até entrevista ao vivo, falando direto da boleia do caminhão para o interiorzão do sul do Brasil.

Daí fico sabendo que Getúlio estava desaparecido havia dois anos. Caiu no mundo, após perder a mãe e o pai ir morar com outra pessoa. Ficou sem chão, após ir trabalhar na colheita de fruta, vendo uma estrada pela frente não mais parou. Trabalhou em circo, parques, carregamentos mil, veio vindo de carona e acabou parando no posto às margens de movimentada rodovia.

Faltava algo e nas viagens seguintes dei um jeito de ir preparando Getúlio para os novos tempos. Esse dia chegou, vieram lá de sua cidade, o funcionário da prefeitura que havia falado comigo, com viagem paga, só para vir buscá-lo. Foi quando sai pela primeira vez na imprensa. A cena da despedida ali no posto foi recheada de muita tristeza e alegria. Ainda levei a ambos no caminhão até a rodoviária da cidade mais próxima e sempre que posso vou ligando, falando pela internet e sabendo de como Getúlio está se adaptando ao retorno junto aos seus. Gratificante tudo isso, não? Falam lá no posto, que tudo foi resolvido porque a mulher é mais sensível. Isso é a mais pura verdade, mas não é só isso. A sensibilidade deve ser inerente ao ser humano e eu sou assim mesmo, decidida em tudo que faço. E foi assim também quando decidi, para espanto dos meus, que queria ser caminhoneira. E é o que sou, mas me desculpem, a conversa está muito boa, mas o trabalho me espera e tenho ainda pela frente mais de 300 km de uma estrada não muito boa. Tchau e até breve. Ou até a próxima história, pois tenho muitas para contar.

Redação: Henrique Perazzi de Aquino
Foto(s): Pedro Celso


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Autor do comentário: Luciano De Souza
Comentado em: 28/11/2011
Comentário: Olha adorei a sua historia de vidae a sua sensibilidade com as outras pessaoas me emocionei muito, sabe sempre quiz caminhoneiro, mas o futuro esta me pregando outra vida, mais ainda não desisti, abraços é que Deus sempre te acomphane aonde for.