Um bom negócio da China
publicado em: 01/05/2011
O que era uma expressão pejorativa, indicando vantagens apenas para um lado, passou a ser sinônimo de bons negócios para ambas as partes, com produtos de boa qualidade, preços menores e a certeza de u
A expressão 'negócio da China' foi criada durante o século 19, época em que a Inglaterra dominou o comércio de ópio na China. A concessão de Hong Kong à Inglaterra após a Guerra do Ópio, deu uma conotação ainda mais clara à expressão.
Afinal, além de se beneficiarem com uma guerra que injustamente provocaram, os ingleses abocanharam parte do território chinês transformandoa numa ponta de lança permanente do Império Britânico na região. Com a revolução chinesa, 'negócio da China' passou a designar toda e qualquer relação comercial proveitosa apenas para uma das partes.
Mas o tempo passou, a China se modernizou, vem obtendo um crescimento econômico assombroso e deve ser a primeira economia mundial em 2012, superando os Estados Unidos.
Essa conquista é fruto da industrialização do país que ainda é o maior produtor agrícola do mundo. Suas fábricas possuem grande índice de automação e a qualidade tem sido cada vez mais aprimorada.
Um exemplo dessa evolução é a Sinotruk, também conhecida como China National Heavy Duty Truck Group Corporation (CNHTC). Constituída na China em 1935 para produzir caminhões para fins militares, a partir de 1983, passou a adquirir tecnologia da fabricante de motores Steyr, formando também outras parcerias ao longo do tempo com marcas consagradas como Eaton, ZF, Jost, Wabco e Denso, entre outras.
De 2003 a 2008, a Sinotruk formou uma joint venture com a Volvo, o que lhe permitiu agregar mais tecnologia aos seus produtos, o que abriu as portas para o mercado mundial, exportando grande quantidade de caminhões desde 2007.
Esse desempenho, somado ao potencial de crescimento global da marca e uma facilidade de acesso ao mercado chinês, fizeram com que a alemã MAN (que comprou a Volkswagen Caminhões e Ônibus no Brasil) assinasse um acordo de parceria estratégica e tecnológica com a Sinotruk em 2009, comprando 25% das ações, mais uma, da participação na montadora chinesa.
Disputa acirrada
O mercado chinês de caminhões, com mais de oito milhões de veículos circulando, é dividido em três categorias: leves, até oito toneladas; médios até 14 toneladas e pesados, acima disso. Seis fabricantes principais disputam esse mercado, com a liderança da Sinotruk entre os pesados, com 22%. A idade média da frota para caminhões basculantes gira em torno de oito anos. Na caso dos cavalos-mecânicos, essa idade sobe para 12 anos.
Mesmo com essa disputa acirrada, a Sinotruk vendeu 195 mil caminhões (o Brasil inteiro consumiu em 2010, 155 mil caminhões), conseguindo um faturamento de US$ 85 bilhões. Para 2011, o objetivo é maior: 230 mil unidades, com uma receita de US$ 95 bilhões. A empresa atua não somente no mercado de caminhões, mas também no de ônibus, imóveis, hospitais e escolas, e exporta para mais de 90 países, com destaque para o Oriente Médio, África, América do Sul, Sudeste Asiático e Rússia. Os mercados da África e América do Sul vêm experimentando crescimento muito rápido.
E para atender o mercado com produtos de qualidade, a Sinotruk atua em duas frentes: parcerias e investimentos. Procura parceiros em outros mercados para auxiliar a operar o negócio de forma ainda melhor. A cooperação com a Volvo levou a empresa a aprimorar a tecnologia, a qualidade e a arte da administração. Com relação à MAN, o ponto principal do acordo é a tecnologia. O acordo é recente, de modo que é preciso esperar algum tempo para que apareçam os resultados de sucesso. ?Com o que oferecemos ao mercado, com a nossa tecnologia, temos informações de nossos clientes de que o produto Sinotruk vem se tornando cada vez melhor?, explicou Liu Wei, vice-Presidente do Grupo CNHTC. "A tecnologia é muito importante para a Sinotruk, por isso, investimos mais de 10% de nossos lucros em pesquisas de tecnologia. Contamos com 100 laboratórios e cerca de 3.500 engenheiros."
Atuação no Brasil
A Sinotruk já está no Brasil, com os veículos sendo importados pela Elecsonic Comércio Ltda., instalada em Campina Grande do Sul (PR). A Sinotruk Brasil (marca fantasia da Elecsonic) tem a responsabilidade de montar a rede, vender e dar a assistência técnica aos modelos da marca e investiu 12 milhões de reais em sua formação. Atualmente está à venda modelo Howo 380, importado para o Brasil. O motor tem 10 litros, obedece a exigência da Euro 3, desenvolve 380 cavalos, conta com caixa ZF e eixo traseiro de dupla redução com tecnologia Steyr. A cabine do modelo tem equipamentos considerados de luxo no segmento de automóveis como, direção hidráulica e ar-condicionado, mas que são considerados itens essenciais pelos caminhoneiros. Os caminhões custam R$ 270 mil na versão 6x2 e R$ 290 mil na versão 6x4.
Ampliando de maneira segura sua rede, a Sinotruk já conta com 25 concessionárias e, até o final do ano, cada uma delas terá uma filial. ?Serão 45 pontos de assistência técnica dessas lojas em todo o território nacional e até o final de 2011, serão 37 concessionárias e 75 pontos?, afirma o diretor Comercial da Sinotruk do Brasil, Joel Anderson. "Estamos treinando mecânicos e vendedores para trabalhar em uma rede dedicada e exclusiva da Sinotruk que deve vender 1.100 caminhões em 2012."
"Os próximos cinco anos serão críticos para o futuro da Sinotruk no Brasil, com o rápido crescimento econômico e com a presença de muitas marcas importantes de caminhões", analisa Liu Wei. "De modo que o sucesso da marca no Brasil terá efeitos positivos em outros mercados sulamericanos. Buscamos um volume de vendas de cinco mil unidades em 2015 e pretendemos montar nossa linha de produção no Brasil dentro dos próximos cinco anos". Como ainda não são fabricados aqui no Brasil, os caminhões da Sinotruk não podem ser adquiridos via Finame, porém, a empresa está trabalhando para obter o financiamento do governo ao mesmo tempo em que cuida para resolver a questão da carência de recursos de distribuidores e clientes.
Os caminhões são líderes no maior mercado do mundo. Têm tecnologia de ponta e preços bem acessíveis. O grande problema da Sinotruk será acabar com a fama de produtos de baixa qualidade que toda mercadoria chinesa tem. Para isso, Liu Wei tem um forte argumento. "A Sinotruk insiste na inovação de forma independente, construindo a venda completa, com serviço e sistema de peças e trabalhamos para chegar à liderança entre todas as marcas chinesas."
No Brasil, a Sinotruk Brasil está treinando sua rede, montando um grande centro de distribuição de peças, contratando uma equipe de especialistas em logística, todos com experiência na indústria automobilística para que o cliente Sinotruk tenha total assistência. "Nosso caminhão tem uma alta confiabilidade, dificilmente quebra", garante Joel Anderson, diretor Comercial da Sinotruk Brasil. "Porém, como transporte é uma atividade muito séria, nós temos em nosso centro de distribuição as principais peças de reposição e, caso aconteça uma infelicidade de uma peça específica não estar em nosso estoque, em 24 garantimos sua entrega por avião."
Para reduzir a dependência das importações, a Sinotruk Brasil está procurando desenvolver junto a fornecedores nacionais, as peças de maior giro. Para o para-brisa, mais sujeito à quebra, já encontrou um fabricante local.
E a aceitação dos caminhões, mesmo sem grande divulgação, tem sido boa. Em 2010, a Sinotruk vendeu 251 unidades. Até abril desse ano, foram 240, e a ideia, a partir do mês de junho, é vender 130 unidades/mês. A China já recebeu um pedido de 1.300 caminhões para o mercado brasileiro. A expectativa é que até o ano de 2015, estejam sendo vendidos 5.000 caminhões/ano, o que viabilizaria a construção de uma fábrica da marca no Brasil. A princípio, uma operação apenas de montagem de veículos importados da China (CKD), para depois a construção de uma fábrica no Brasil.
Além do caminhão de 380 cavalos, a Sinotruk também produz outros modelos com motor de 12 litros, que vão de 320 a 460 cavalos de potência, respeitando os limites de emissões da norma Euro 5 e caminhões leves, por meio de duas fábricas recentemente compradas. "Temos produtos para atender as necessidades dos clientes", afirma Anderson. "Ninguém se estabelece no mercado de caminhões se o cliente não tiver a certeza de que a empresa é séria e veio para ficar. E é essa certeza que estamos dando aos nossos clientes com uma rede em franca expansão, centro de distribuição completo e garantia de fábrica."
Segundo o diretor Comercial da Sinotruk Brasil, além do caminhão em si, ele pode oferecer como argumento de venda, melhor custo/benefício, preço inicial mais baixo, e o fato de os modelos poderem ser adquiridos pelo CDC com a taxa de 0,99%, leasing ou consórcio.
Cliente satisfeito
A Sinotruk Brasil trouxe dois caminhões, em 2008, para testes, mais 100 unidades em 2009 e vendeu 251 em 2010. Ainda não existe um cliente com uma quilometragem alta o suficiente para dar um depoimento com todos os parâmetros para comparação, apenas a certeza da satisfação transformada em novas compras.
Na China, visitei uma transportadora na cidade de Zao Zhuang, e seus diretores estão muito satisfeitos com os caminhões Sinotruk, afinal, têm 135 unidades da marca, modelo Howo. Esse ano comprou 10, irá comprar mais 20 até o fim do ano e já assinalou que em 2011 comprará mais 40, a título de renovação da frota que é feita a cada sete anos. Cada caminhão roda 20 mil por ano. O mais antigo já atingiu 900 mil quilômetros e não apresentou nenhum problema, atestando a durabilidade e confiança da marca.
Segundo os diretores da empresa, o grande fator para escolher os Sinotruk foi a economia de combustível, item que representa 50% na planilha de custo. A média de consumo é de 2,7 km/l de diesel, transportando 48 toneladas de peso bruto total, em estradas perfeitas, sem buracos, como as nossas.
A vida útil dos pneus gira em torno de 35 a 40 mil quilômetros, depois são vendidos para uma empresa de reciclagem. Eles não fazem recapagem de pneus. A transportadora conta com 300 motoristas para transportar produtos químicos como ácido sulfúrico e amônia. Cada viagem cobre um percurso de 2.000 km, por isso é feita sempre com dois motoristas, que recebem, em média US$ 900 mensais.
Ver para crer
Quando a revista Caminhoneiro foi convidada para conhecer as instalações da Sinotruk na China, e essa agradável tarefa coube a mim, fiquei empolgado em conhecer um país com muitas bicicletas, muito arroz, e pessoas andando com chapéus que parecem abajour.
O que encontrei em Pequim e Xangai foram cidades de primeiro mundo, com o trânsito mais intenso do que São Paulo e veículos, muitos carros. As bicicletas são vistas pela manhã e no final da tarde, servem de meio de locomoção e transporte de tudo, de crianças até aquário (com peixe). Lá não existem os motoboys. O inverno é rigoroso e prolongado, o que inibe os adeptos do motociclismo.
Ao chegar à fábrica da Sinotruk, outra surpresa: é grande. É muito grande. É a maior fábrica que já conheci nos meus 27 anos de jornalista cobrindo a indústria automobilística. E não é uma, são quatro: caminhões, transmissão e duas fábricas de motores. Em 2010 foram produzidos 105 mil motores, ou um motor a cada 2,5 minutos. A fábrica de caixa de câmbio produziu 180 mil unidades/ano, incluindo modelos automatizados com 16 marchas. Ela também produz eixos, 200 mil dianteiros e 400 mil traseiros em 2010. Para se ter uma ideia da grandiosidade das fábricas da Sinotruk, a de transmissão tem 45.000 m2, a de motor 55.000 m2 e a de caminhões 821.000 m2, sendo 150.000 m2 de área construída. Somando apenas as áreas construídas, a Sinotruk tem 250.000 m2 (sem contar uma fábrica de motores), ou seja, mais do que duas vezes a área construída do estádio do Maracanã.
Para tocar esse conjunto todo, 50 mil pessoas trabalham diariamente em um ambiente limpo, bem iluminado e com muita eficiência. Vocês podem me perguntar: e as pessoas andando de chapéu que parece abajour? Bem, essas eu não vi. Só no filme do Rambo. Mas aquela é a China do cinema. A China atual está pronta para assumir o primeiro lugar na economia mundial. Não com armas, mas com produtos de muita tecnologia e qualidade.
O jornalista Francisco Reis foi à China, a convite da Sinotruk.
Redação: Francisco Reis
Foto(s): Julio Kniss
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